Fazia frio. O termômetro nas ruas de São Paulo não marcava mais do que 13 graus. O sol era forte. Intenso como costuma ser aquele que se despede do outono para a chegada do inverno. Deitada no sofá, só os pés para fora da coberta, embora protegidos por meias vermelhas.
Eram 27 andares o prédio que eu morava. Em cada um, oito apartamentos. Em cada apartamento, quantas vidas? - ficava sempre a me perguntar. Eu estava no décimo segundo, porque fica aquela coisa de ficar no meio do caminho. Nem muito em cima, nem muito embaixo. A gente não se compromete e fica só observando. É confortável.
Minha pequena sacada de 1 metro por 80 centímetros era um receptor de histórias não verbalizadas. Eram pedaços de histórias que não caíam do céu, mas dos andares acima.
Na última semana foram três tipos de cigarro: Marlboro light, Gudang Garam e um cigarro de palha.
O primeiro era difícil saber. O Marlboro é mais um na multidão. Por ser light, talvez fosse de uma mulher. Ou de um homem sensível. Ou de alguém que estava tentando se preservar, não se envolver tanto. Com o fumo, eu digo. Os brutos fumam logo o vermelho ou algum outro sem filtro.
O Gudang Garam era da moça do 172. Magérrima, macrobiótica e que usava um perfume forte de sândalo. E fumava Gudang. O olfato, de certo, já tinha ido para o saco.
O cigarro de palha era de uns garotos que estudam engenharia na faculdade aqui do lado. Moram no 202, se não me engano.
Teve uma luva também. Dessas cirúrgicas descartáveis. Não consigo imaginar qual procedimento foi feito com elas e porque apenas a esquerda foi parar na minha sacada. Havia algum profissional da área da saúde por aquelas bandas. Ou alguém muito doente que exigia cuidados específicos. Ou era apenas uma dona de casa que não queria estragar o esmalte limpando a privada ou lavando louças.
Mas naquela preparação para o solstício de inverno, algo diferente caiu do andar de cima.
Voltando a cena, estava estirada no sofá. O olhar fixo na tela da TV onde passava um filme de época cujo nome me fugiu. Me distraí por uns segundos e vi, pela cortina entreaberta, um papel a repousar no chão do meu puxadinho. Hesitei por alguns instantes, mas acabei por tomar coragem e enfrentar o frio.
Abri a porta de vidro que separava a sala da sacada e vi, no pedaço de papel fotográfico comiserado, o rosto de mulher. Ela sorria. Contudo, alguém chorava. O amor tinha acabado alguns andares acima. No papel tinham marcas de raiva e dor. Antes de ser picotada, a foto foi amassada várias vezes e depois jogada no lixo. Insuficiente para extravasar a dor de um amor que acabara, a pessoa abriu o lixo, retirou a foto e picou em vários pedacinhos. O ato é quase sempre purificador. Parece que ele consegue expressar o que a gente tem dificuldade de tirar da garganta.
Era jovem a moça da foto. Morena. Dava pra saber que no dia da foto fazia sol porque os cabelos estavam iluminados. Ela sorria, mas sua decisão fez alguém chorar. Antes, no entanto, esse alguém tinha feito ela chorar também. O que é a vida senão uma quadrilha, não é, seo Drummond?
Foram 2 anos, 6 meses e 12 dias de namoro. Do jeito que começou, terminou. Em silêncio. Mas do primeiro silêncio, se fez paz. Do derradeiro, se fez dor. Acho que dói mesmo porque, no fim das contas, a gente é também o que a gente perde. Só consigo ouvir o Jackie Wilson cantando: "I don't need you around, because I found somebody new" e a moça da foto saindo, apagando a luz e fechando a porta.
Ela deixou ele ali, sentado no sofá. Um longo silêncio, um choro doído e as fotos picadas. Os homens, ainda que dramáticos, têm mais facilidade de seguir adiante e picar as lembranças. O amor acabou alguns andares acima. E olha que o inverno nem tinha dado as caras ainda.
terça-feira, 25 de junho de 2013
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Utopia
Existiam dois lados. O lado A e o lado B. O poder supremo tentava qualificar cada um dos lados, o que dicotomizava ainda mais a massa. Segregava os bons dos maus. Mas o poder, afinal, de que lado estava? Ele existia acima de todas as coisas e era indefinível, contudo aceito pelos dois lados.
Algo naquele mundo havia se modificado. Há algum tempo um dos lados decidira deixar de acatar e passou a questionar. Eram tempos em que os extremismos cresceram e os argumentos caíram por terra. Mas quem precisa de argumentos quando existe uma causa muito evidente que mobiliza? A postura de respeito se mantinha, mas havia mudado o foco. Porque respeitar não é necessariamente obedecer. Muito menos aceitar. Um dos lados ficava, a cada dia, mais impregnado de um inconformismo gestado por muitos anos de inércia. O outro era tomado de uma inveja maligna, porque, no fundo, queriam ter forças para romper paradigmas, mas o que está arraigado é dolorido de se deixar desprender. Tamanha inveja que se transformou em ira. Quando se encontravam, nas ruas e avenidas daquele lugar, a liberdade de um dos lados foi gerando a intolerância do outro. Mas não tinham bons e maus. Tinham libertados e comandados. E os comandantes, sem rosto e com os olhos bem distantes dali. Afinal, o poder traz tantas responsabilidades, não é mesmo?
Foram dias difíceis. A questão não era de convencimento, mas de pertencimento. E, por mais evidente que isso possa parecer, mudanças exigem um tempo para acontecer. Muita persistência. De um lado em falar, do outro em calar. Até que um dia, o lado que oprimia se percebeu oprimido. Tudo aquilo não fazia o menor sentido. Quem estamos defendendo, afinal? - questionava um dos lados.
No encontro final, o catalisador da mudança, um dos lados apareceu nu. Unificada, a massa despida de qualquer pressuposto, seguia, distribuindo sorrisos e palavras de ternura. A cada metro, ela aumentava de tamanho. Do outro lado, a massa obediente, iluminada pela escuridão e um peso imenso nos ombros, sentia o dificuldade de enxergar, o que impedia uma movimentação ordenada. Se encontraram. (pausa).
Cada um do outro lado, foi deixando as armas no chão, tirando o peso dos ombros e se uniu aos outros. Porque, no final das contas, era feito da mesma matéria do outro. Os olhares não mais se cruzavam em confronto sem sentido, mas miravam para a mesma direção e a caminhada nunca mais parou. Se sentiram compreendidos e representados. Deixaram de acatar, passaram a questionar. O poder supremo, de onde vinham as ordens, ficou tão envergonhado por ter se deslegitimado, que, solitário, desapareceu. Ainda está sendo procurado. Vivo ou morto, oferece-se grande recompensa. Se for achado, terá como punição viver exatamente com aquilo que dizia oferecer para os outros. E terá vida eterna, mas não vai sublimar, não. Ficará na terra.
Porque, às vezes, é preciso desconstruir, distanciar, analisar e, só depois disso tudo feito, começar a reconstrução.
Algo naquele mundo havia se modificado. Há algum tempo um dos lados decidira deixar de acatar e passou a questionar. Eram tempos em que os extremismos cresceram e os argumentos caíram por terra. Mas quem precisa de argumentos quando existe uma causa muito evidente que mobiliza? A postura de respeito se mantinha, mas havia mudado o foco. Porque respeitar não é necessariamente obedecer. Muito menos aceitar. Um dos lados ficava, a cada dia, mais impregnado de um inconformismo gestado por muitos anos de inércia. O outro era tomado de uma inveja maligna, porque, no fundo, queriam ter forças para romper paradigmas, mas o que está arraigado é dolorido de se deixar desprender. Tamanha inveja que se transformou em ira. Quando se encontravam, nas ruas e avenidas daquele lugar, a liberdade de um dos lados foi gerando a intolerância do outro. Mas não tinham bons e maus. Tinham libertados e comandados. E os comandantes, sem rosto e com os olhos bem distantes dali. Afinal, o poder traz tantas responsabilidades, não é mesmo?
Foram dias difíceis. A questão não era de convencimento, mas de pertencimento. E, por mais evidente que isso possa parecer, mudanças exigem um tempo para acontecer. Muita persistência. De um lado em falar, do outro em calar. Até que um dia, o lado que oprimia se percebeu oprimido. Tudo aquilo não fazia o menor sentido. Quem estamos defendendo, afinal? - questionava um dos lados.
No encontro final, o catalisador da mudança, um dos lados apareceu nu. Unificada, a massa despida de qualquer pressuposto, seguia, distribuindo sorrisos e palavras de ternura. A cada metro, ela aumentava de tamanho. Do outro lado, a massa obediente, iluminada pela escuridão e um peso imenso nos ombros, sentia o dificuldade de enxergar, o que impedia uma movimentação ordenada. Se encontraram. (pausa).
Cada um do outro lado, foi deixando as armas no chão, tirando o peso dos ombros e se uniu aos outros. Porque, no final das contas, era feito da mesma matéria do outro. Os olhares não mais se cruzavam em confronto sem sentido, mas miravam para a mesma direção e a caminhada nunca mais parou. Se sentiram compreendidos e representados. Deixaram de acatar, passaram a questionar. O poder supremo, de onde vinham as ordens, ficou tão envergonhado por ter se deslegitimado, que, solitário, desapareceu. Ainda está sendo procurado. Vivo ou morto, oferece-se grande recompensa. Se for achado, terá como punição viver exatamente com aquilo que dizia oferecer para os outros. E terá vida eterna, mas não vai sublimar, não. Ficará na terra.
Porque, às vezes, é preciso desconstruir, distanciar, analisar e, só depois disso tudo feito, começar a reconstrução.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Espelho, espelho meu
O que a gente vê no outro e rejeita é o que temos de pior e mais obscuro em nós mesmos. Esse é o espelho mágico na sua concepção mais assemelhada com a caixa de pandora. O mais maluco é que, muitas vezes, a outra pessoa não é aquilo na essência, mas nós a enxergamos daquele jeito. O que é bem diferente. E aí, pronto: daí para uma injustiça no julgamento é um passo. E acontece muito.
A história toda é que, equivocadamente, a pessoa acha que o outro, sejam os defeitos ou qualidades, podem ser determinantes para as ações dela. Mas não podem. Ou não deveriam poder, ao menos. Se estão podendo influir nesse nível, algo de muito errado está acontecendo.
Se alguém insiste em te rotular - ah, você é louca, ah, você é pavio curto, ah, com você não tem diálogo, blablabla - e imputa em você o bem ou mal estar dela, o problema não está em você, o problema está nela. É o espelho mágico: ela é exatamente tudo o que falou para você. E piorada. Porque quando estamos assim, acabamos sendo castradores com os erros dos outros e generosos - e por que não, condescendentes - com nossas falhas. Criamos uma capacidade quase cativa de nos perdoarmos, mas somos incapazes de voltar para o outro um olhar generoso, um olhar cúmplice.
O espelho mágico pode transmutar em atitudes externalizadas de maneira negativa. Quem se projeta no outro é a isca ideal para relações amorosas de dependência, daquelas que você não consegue se livrar nunca mais na sua vida. Trágico! Corre-se o risco também, ao se comparar, de adotar uma postura arrogante: o inferno são os outros. O inferno sempre é o outro quando o inferno é você.
Não aceite um dedo em riste que é incapaz de se entrelaçar nos seus e te puxar pra cima!
Mesmo porque quem faz isso, na verdade, está apontando os outros três para si mesmo.
As acusações são as melhores justificativas para quem não assume sua própria vida e quer, ainda por cima, colocar no outro a responsabilidade pelo fracasso de um objetivo. Afinal, para que reconsiderar, compreender as emoções do outro, se você pode pisar, limpar os sapatos quando chega em casa e seguir em frente, não é mesmo?
Já se olhou no espelho hoje?
A história toda é que, equivocadamente, a pessoa acha que o outro, sejam os defeitos ou qualidades, podem ser determinantes para as ações dela. Mas não podem. Ou não deveriam poder, ao menos. Se estão podendo influir nesse nível, algo de muito errado está acontecendo.
Se alguém insiste em te rotular - ah, você é louca, ah, você é pavio curto, ah, com você não tem diálogo, blablabla - e imputa em você o bem ou mal estar dela, o problema não está em você, o problema está nela. É o espelho mágico: ela é exatamente tudo o que falou para você. E piorada. Porque quando estamos assim, acabamos sendo castradores com os erros dos outros e generosos - e por que não, condescendentes - com nossas falhas. Criamos uma capacidade quase cativa de nos perdoarmos, mas somos incapazes de voltar para o outro um olhar generoso, um olhar cúmplice.
O espelho mágico pode transmutar em atitudes externalizadas de maneira negativa. Quem se projeta no outro é a isca ideal para relações amorosas de dependência, daquelas que você não consegue se livrar nunca mais na sua vida. Trágico! Corre-se o risco também, ao se comparar, de adotar uma postura arrogante: o inferno são os outros. O inferno sempre é o outro quando o inferno é você.
Não aceite um dedo em riste que é incapaz de se entrelaçar nos seus e te puxar pra cima!
Mesmo porque quem faz isso, na verdade, está apontando os outros três para si mesmo.
As acusações são as melhores justificativas para quem não assume sua própria vida e quer, ainda por cima, colocar no outro a responsabilidade pelo fracasso de um objetivo. Afinal, para que reconsiderar, compreender as emoções do outro, se você pode pisar, limpar os sapatos quando chega em casa e seguir em frente, não é mesmo?
Já se olhou no espelho hoje?
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Ela não gosta de se sentir feliz. Dá um medo danado.
Novembro de 2009
A amiga ouve o aviso de mensagem no celular. Abre e lê: "Estou tão feliz, mas estou com medo. Apenas diga que vai dar tudo certo"
Ela rapidamente responde: "Vai dar, sim, amiga. Já está dando"
Três meses depois, não deu.
Novembro de 2010
Ela conversa com a amiga no sofá da casa dela:
- Estou tão feliz, mas não gosto disso, porque dá medo. Apenas diga que vai dar tudo certo.
A amiga interrompe:
- Vai dar tudo certo, sim, é claro. Depois de tudo que você esperou. Já deu!
Três meses depois, não deu.
É possível, roteirista, essa personagem tentar mais uma vez com o mesmo otimismo e coragem?
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Ensaio sobre morrer e nascer - 1º movimento
Ela abre a porta de casa devagar e vê a irmã, que estava passando uns dias por lá, sentada no sofá, segurando o controle remoto frouxamente e com olhar fixo.
- Você não imagina o que acabou de acontecer...
- O que?
- O Paulo morreu. Eu o vi hoje de manhã na academia, conversamos, não eram nem 11h30...
- Como sabe?
- Marcelo ligou.
- E morreu do que?
- Acidente de moto. Eu tinha visto ele hoje. Hoje de manhã, faz menos de 24 horas que conversamos, ele tava animado, que loucura...
Ficou pensando que a vida é breve e não dá aviso. Não achou que era fácil demais morrer, mas pensou na fragilidade da vida. Pensou quanto tempo já havia perdido em discussões sem sentido com alguém que amava, enquanto poderia estar vivendo esse presente que também é breve. Pensou que talvez devesse ligar para uma amiga com quem não falava fazia tempo para dizer que se importava com ela. Lembrou que a última vez que tinha ido visitar a família, foi... quando mesmo??? Pensou na merda de vida que levava fazendo planos e esquecendo de viver o que naquele momento lhe era disponibilizado. Se emputeceu ao constatar que, enquanto se esperam grandes coisas (uma grande paixão, um grande salário, uma grande promoção, uma grande viagem), as pequenas, tanto ou mais importantes, escorrem pelo ralo. Irritou-se ao notar que estava buscando certezas e a única certeza o amigo da irmã dela tinha encontrado um pouco mais cedo. Sentiu-se tola pelas vezes que não arriscou, pelas vezes que não tentou, pelas vezes que insistiu quando deveria desistir e vice-e-versa.
- Na verdade, a vida é uma série de nascimentos e mortes nem sempre coordenados. Mas há quem fique apenas com uma das partes. E é um lixo! Quem nasce a todo momento vive só no futuro. Quem morre sempre vive no passado - disse a irmã, interrompendo o fluxo de pensamento.
Elas se puseram a fazer o exercício de imaginar o que ele sentiu nos últimos dias: estava feliz hoje? Será que conseguiu comer o hamburguer daquela lanchonete que abriu na cidade? O que pretendia fazer amanhã? E no próximo feriado? Talvez até mesmo tivesse comprado o ingresso para um show de rock concorridíssimo que não vai mais ver. Por causa da moto. Por causa do carro que não viu. Porque ficou desgraçadamente no ponto cego de um caminhão. Mais pelo ocaso eterno, que pelo acaso, ironicamente quase sempre tão previsível. A vida não dá recado, mas passa recibo. E não aceita devolução.
- Você não imagina o que acabou de acontecer...
- O que?
- O Paulo morreu. Eu o vi hoje de manhã na academia, conversamos, não eram nem 11h30...
- Como sabe?
- Marcelo ligou.
- E morreu do que?
- Acidente de moto. Eu tinha visto ele hoje. Hoje de manhã, faz menos de 24 horas que conversamos, ele tava animado, que loucura...
Ficou pensando que a vida é breve e não dá aviso. Não achou que era fácil demais morrer, mas pensou na fragilidade da vida. Pensou quanto tempo já havia perdido em discussões sem sentido com alguém que amava, enquanto poderia estar vivendo esse presente que também é breve. Pensou que talvez devesse ligar para uma amiga com quem não falava fazia tempo para dizer que se importava com ela. Lembrou que a última vez que tinha ido visitar a família, foi... quando mesmo??? Pensou na merda de vida que levava fazendo planos e esquecendo de viver o que naquele momento lhe era disponibilizado. Se emputeceu ao constatar que, enquanto se esperam grandes coisas (uma grande paixão, um grande salário, uma grande promoção, uma grande viagem), as pequenas, tanto ou mais importantes, escorrem pelo ralo. Irritou-se ao notar que estava buscando certezas e a única certeza o amigo da irmã dela tinha encontrado um pouco mais cedo. Sentiu-se tola pelas vezes que não arriscou, pelas vezes que não tentou, pelas vezes que insistiu quando deveria desistir e vice-e-versa.
- Na verdade, a vida é uma série de nascimentos e mortes nem sempre coordenados. Mas há quem fique apenas com uma das partes. E é um lixo! Quem nasce a todo momento vive só no futuro. Quem morre sempre vive no passado - disse a irmã, interrompendo o fluxo de pensamento.
Elas se puseram a fazer o exercício de imaginar o que ele sentiu nos últimos dias: estava feliz hoje? Será que conseguiu comer o hamburguer daquela lanchonete que abriu na cidade? O que pretendia fazer amanhã? E no próximo feriado? Talvez até mesmo tivesse comprado o ingresso para um show de rock concorridíssimo que não vai mais ver. Por causa da moto. Por causa do carro que não viu. Porque ficou desgraçadamente no ponto cego de um caminhão. Mais pelo ocaso eterno, que pelo acaso, ironicamente quase sempre tão previsível. A vida não dá recado, mas passa recibo. E não aceita devolução.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Por que não devemos ler e-mails antigos?
O ser humano é apegado. Não consegue se desprender de nada. Sentimentos, emoções, coisas materiais, documentos... Quem não tem o hábito de deixar arquivados e-mails antigos? Pode até deixar, sei lá, por precaução, se no registro contiver algo que pode te salvar ou mesmo ser usado contra você, até vai. Mas um alerta: nunca leia e-mails que datam quatro anos atrás, por exemplo. Vale para cartas também, embora eu tenha certeza de que só eu ainda escrevo e mando cartas...enfim, sejam cartas ou e-mails: não recupere. Não faça essa bobagem! O melhor é fazer o exercício de apagar. Os enviados, sobretudo. Faça esse exercício: é libertador.
Caso contrário, você, uma hora ou outra vai voltar para essas caixinhas antigas, vai reler e vai perceber que perdeu o cara da sua vida, porque pensou que ele era seu amigo, mas na verdade ele sempre quis ser seu namorado (acontece...). Você vai achar que era mais realizada e bem sucedida no trabalho, mesmo sendo uma grande mentira. Você vai achar que era mais livre, mais bonita e tinha mais amigos, o que pode até ser verdade. Mas, afinal, para que saber? Para que mexer em uma memória que ficou justamente ali, para ser lembrada remotamente, jamais revivida, digerida novamente. Dá indigestão esse tipo de coisa.
O que ficou no passado não foi para lá e ficou à toa. Tem sempre uma razão. Sempre que nos deparamos com escritos antigos, sejam de amigos ou amores (ou os dois ao mesmo tempo), nos dá a impressão que era perfeito. Mas então por que não deu certo? Com certeza, porque não era tão perfeito assim... E ficamos com a sensação do ideal. E aí, quando comparamos com o real, o ideal ganha disparado. E aí ficamos vivendo patinando nesse passado lamacento e irreal, que deveria ter ficado alí, para trás, no lugar dele. E nos iludimos que poderia haver um futuro se algo fosse recuperado. Bobagem! Não dá pra pegar as declarações passadas e colocar no presente. Não combina, não dá jogo, não dá liga. A história é outra, as pessoas são outras, o momento é outro.
Mesmo porque há uma dose forte de pretenso controle do futuro ao fazer isso. É mais seguro saber que você terá uma segunda chance e que poderá fazer diferente (ou fazer tudo igual e ter um resultado diferente). É reconfortante, né? Mas, de uma forma geral e na maior parte das vezes, a vida não dá uma segunda chance. Quando (e se) der, aproveite! Porque tá cheio de gente por aí que tem até terceira e quarta chance e joga no lixo. Esses sim, os patinadores no lamaçal de amargura do passado.
Caso contrário, você, uma hora ou outra vai voltar para essas caixinhas antigas, vai reler e vai perceber que perdeu o cara da sua vida, porque pensou que ele era seu amigo, mas na verdade ele sempre quis ser seu namorado (acontece...). Você vai achar que era mais realizada e bem sucedida no trabalho, mesmo sendo uma grande mentira. Você vai achar que era mais livre, mais bonita e tinha mais amigos, o que pode até ser verdade. Mas, afinal, para que saber? Para que mexer em uma memória que ficou justamente ali, para ser lembrada remotamente, jamais revivida, digerida novamente. Dá indigestão esse tipo de coisa.
O que ficou no passado não foi para lá e ficou à toa. Tem sempre uma razão. Sempre que nos deparamos com escritos antigos, sejam de amigos ou amores (ou os dois ao mesmo tempo), nos dá a impressão que era perfeito. Mas então por que não deu certo? Com certeza, porque não era tão perfeito assim... E ficamos com a sensação do ideal. E aí, quando comparamos com o real, o ideal ganha disparado. E aí ficamos vivendo patinando nesse passado lamacento e irreal, que deveria ter ficado alí, para trás, no lugar dele. E nos iludimos que poderia haver um futuro se algo fosse recuperado. Bobagem! Não dá pra pegar as declarações passadas e colocar no presente. Não combina, não dá jogo, não dá liga. A história é outra, as pessoas são outras, o momento é outro.
Mesmo porque há uma dose forte de pretenso controle do futuro ao fazer isso. É mais seguro saber que você terá uma segunda chance e que poderá fazer diferente (ou fazer tudo igual e ter um resultado diferente). É reconfortante, né? Mas, de uma forma geral e na maior parte das vezes, a vida não dá uma segunda chance. Quando (e se) der, aproveite! Porque tá cheio de gente por aí que tem até terceira e quarta chance e joga no lixo. Esses sim, os patinadores no lamaçal de amargura do passado.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Solidão
Ela vivia em um apartamento em uma cidade grande, morava sozinha, tinha um bom emprego, tinha alguns amigos. Cursou uma boa faculdade. Com alguns amigos dessa época ela ainda tinha contato. Era um pouco misteriosa, não era afeita a barzinhos, mas gostava de baladas. Algumas. Tinha um passarinho azul de peito branco que chamava carinhosamente de Dó. Mas era por causa da primeira nota musical.
Vivia sua vida de maneira correta. Ou ao menos tentava. Se envolvia casualmente com alguns caras, mas nenhum dos casos durava mais de dois meses. Ela não se importava. Sempre havia alguém novo e disposto a conhecê-la. Ela era muito bonita, chamava a atenção de homens e mulheres. Gostava de se cuidar. Tinha os cabelos longos, negros, pele bem branca, olhos verdes. Era agradável, não muito sorridente, contudo simpática.
Sua semana era organizada entre trabalho, afazeres domésticos, cinema e livros que sempre ficavam por terminar na sua cômoda. Ela tinha o hábito de começar uma história e quando estava do meio para o fim iniciar outro livro, deixando aquele por terminar.
Pagava suas contas em dia, era muito bem quista pelos vizinhos e nunca tinha recebido qualquer reclamação. Vivia, na verdade, em um pleno silêncio na maior parte do tempo.
Um dia ela se matou. É, banal assim mesmo, porque o fim das coisas quase sempre é banal. Saiu de casa, foi ao supermercado comprar algumas coisas e na volta parou e contemplou o pôr do sol. Deixou as sacolas por um instante de lado e saltou do viaduto. Todos ficaram sem entender. Mas se matou por que?
Solidão.
Há quem não suporte a solidão e enlouqueça, andando por aí falando aos quatro ventos sem qualquer interlocutor nas ruas das grandes cidades, em praças e supermercados 24 horas. Há quem goste tanto dela, que fique fissurado a ponto de escolhê-la para sempre.
Nota: Qualquer semelhança com alguma história que conheçam é mera coincidência. Apenas coincidência...
Vivia sua vida de maneira correta. Ou ao menos tentava. Se envolvia casualmente com alguns caras, mas nenhum dos casos durava mais de dois meses. Ela não se importava. Sempre havia alguém novo e disposto a conhecê-la. Ela era muito bonita, chamava a atenção de homens e mulheres. Gostava de se cuidar. Tinha os cabelos longos, negros, pele bem branca, olhos verdes. Era agradável, não muito sorridente, contudo simpática.
Sua semana era organizada entre trabalho, afazeres domésticos, cinema e livros que sempre ficavam por terminar na sua cômoda. Ela tinha o hábito de começar uma história e quando estava do meio para o fim iniciar outro livro, deixando aquele por terminar.
Pagava suas contas em dia, era muito bem quista pelos vizinhos e nunca tinha recebido qualquer reclamação. Vivia, na verdade, em um pleno silêncio na maior parte do tempo.
Um dia ela se matou. É, banal assim mesmo, porque o fim das coisas quase sempre é banal. Saiu de casa, foi ao supermercado comprar algumas coisas e na volta parou e contemplou o pôr do sol. Deixou as sacolas por um instante de lado e saltou do viaduto. Todos ficaram sem entender. Mas se matou por que?
Solidão.
Há quem não suporte a solidão e enlouqueça, andando por aí falando aos quatro ventos sem qualquer interlocutor nas ruas das grandes cidades, em praças e supermercados 24 horas. Há quem goste tanto dela, que fique fissurado a ponto de escolhê-la para sempre.
Nota: Qualquer semelhança com alguma história que conheçam é mera coincidência. Apenas coincidência...
quinta-feira, 5 de abril de 2012
A visita
O que você pensa antes da morte? O que passa pela sua cabeça minutos antes de ser levado para um passeio para a eternidade por ela? A Morte se tornou soberba com o passar da vida, porque sabe que, não importa com quantas mulheres você se relacione, ela será a última.
(Respiração curta. Fraca.)
É nisso que ele pensava olhando para o teto daquela UTI. Havia uma TV. Desligada. A cama pequena e com duas grades ameaçadoras.
(Respiração. O Bipap sobre um pouco e depois desce, cansado de trabalhar)
Melhor que estivesse em uma prisão. É assim que me sinto. Quando alguém vem me visitar fica 20 minutos e logo passa a enfermeira, tal qual uma carcereira: "Acabou a visita". Mas afinal de contas que foi que eu fiz de errado para estar aqui preso? Encerrado... Encelado... Talvez tenha vivido demais. Mas vivi bem, todo o tempo me foi, de fato, prazeroso e muito bom.
(Um bipe insistente no capnógrafo do paciente ao lado. Nos momentos de intervalo, é o silêncio que fala)
A hora não passa dentro de um hospital. Em uma UTI é pior ainda. Não se vê a luz a do sol, nem a da lua. Não se sabe se chove ou faz calor. É uma bolha hermética, que pode salvar, mas pode enlouquecer.
(Respiração. Incômodo. Vira de um lado. Dor)
Quando eu sair daqui, vou tentar ser mais tolerante com os outros. Reclamar menos do que acontece, afinal, quando está ruim para mim pode estar para outras pessoas. Vou aceitar mais convites, vou me arriscar até a algumas loucuras... E a máxima mais verdadeira, de fato, é aquela que diz que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Opa, tá chegando alguém...será ela?
(Respiração acelerada. O bipap se desprende do lado esquerdo. Difícil respirar)
Ele queria ver a amada, a Vida, antes que a Morte chegasse. Mas a Vida não podia vê-lo na UTI, ia ficar frágil no território da Morte. Vieram dois fiéis escudeiros, mensageiros da Vida e explicaram a impossibilidade. Falar ao telefone em um centro de tratamento intensivo era proibido, mas dada a circunstância.
(Brilho nos olhos. Sorriso sem dentes. Ânimo.)
- Qual o problema em burlar uma regra que ninguém respeita? E por um motivo nobre. Ligue agora e eu arcarei com as consequências.
Assim foi feito. Pelo celular, ligamos para ela, que atendeu:
- Alô?
Do outro lado da linha, a Vida, cheia de alegria, podia ser ouvida:
- Alô!!! É você? Não acredito que ligou.
E falaram de coisas tão belas e únicas, tão cúmplices e ininteligíveis para os que observavam aquela cena de amor, mas que fazia todo o sentido para a Vida.
Desligou:
- Pronto. Agora sim, tudo vai ficar bem! Não importa se vida ou morte, estou em paz.
*em homenagem ao Toninho Cruz, meu avô guerreiro.
(Respiração curta. Fraca.)
É nisso que ele pensava olhando para o teto daquela UTI. Havia uma TV. Desligada. A cama pequena e com duas grades ameaçadoras.
(Respiração. O Bipap sobre um pouco e depois desce, cansado de trabalhar)
Melhor que estivesse em uma prisão. É assim que me sinto. Quando alguém vem me visitar fica 20 minutos e logo passa a enfermeira, tal qual uma carcereira: "Acabou a visita". Mas afinal de contas que foi que eu fiz de errado para estar aqui preso? Encerrado... Encelado... Talvez tenha vivido demais. Mas vivi bem, todo o tempo me foi, de fato, prazeroso e muito bom.
(Um bipe insistente no capnógrafo do paciente ao lado. Nos momentos de intervalo, é o silêncio que fala)
A hora não passa dentro de um hospital. Em uma UTI é pior ainda. Não se vê a luz a do sol, nem a da lua. Não se sabe se chove ou faz calor. É uma bolha hermética, que pode salvar, mas pode enlouquecer.
(Respiração. Incômodo. Vira de um lado. Dor)
Quando eu sair daqui, vou tentar ser mais tolerante com os outros. Reclamar menos do que acontece, afinal, quando está ruim para mim pode estar para outras pessoas. Vou aceitar mais convites, vou me arriscar até a algumas loucuras... E a máxima mais verdadeira, de fato, é aquela que diz que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Opa, tá chegando alguém...será ela?
(Respiração acelerada. O bipap se desprende do lado esquerdo. Difícil respirar)
Ele queria ver a amada, a Vida, antes que a Morte chegasse. Mas a Vida não podia vê-lo na UTI, ia ficar frágil no território da Morte. Vieram dois fiéis escudeiros, mensageiros da Vida e explicaram a impossibilidade. Falar ao telefone em um centro de tratamento intensivo era proibido, mas dada a circunstância.
(Brilho nos olhos. Sorriso sem dentes. Ânimo.)
- Qual o problema em burlar uma regra que ninguém respeita? E por um motivo nobre. Ligue agora e eu arcarei com as consequências.
Assim foi feito. Pelo celular, ligamos para ela, que atendeu:
- Alô?
Do outro lado da linha, a Vida, cheia de alegria, podia ser ouvida:
- Alô!!! É você? Não acredito que ligou.
E falaram de coisas tão belas e únicas, tão cúmplices e ininteligíveis para os que observavam aquela cena de amor, mas que fazia todo o sentido para a Vida.
Desligou:
- Pronto. Agora sim, tudo vai ficar bem! Não importa se vida ou morte, estou em paz.
*em homenagem ao Toninho Cruz, meu avô guerreiro.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Enquanto o amor não vem
Enquanto o amor não vem, escancare as janelas da sua casa todos os dias, mesmo nos de chuva. Se molhar o chão, enxugue. Se molhar o tapete, estenda no varal. Se for um dia de sol, contemple, respire fundo e agradeça. Enquanto o amor não vem, troque a cor do seu esmalte toda semana, mude o corte de cabelo, gaste uma grana em um creme novo porque gostou do cheiro ou simplesmente porque quis. Enquanto o amor não vem, teste novas receitas, compre um bom vinho toda semana, seja para tomar sozinha ou acompanhada, faça novas amizades, chame os velhos amigos para um café ou mesmo para uma cerveja. Enquanto o amor não vem, jogue fora coisas velhas que guardou e nem se lembra o motivo, limpe suas gavetas, tire tudo do armário, limpe, doe algumas roupas e sapatos que não te servem mais. Enquanto o amor não vem, tente começar a meditação, vá saltar de paraquedas, vá em um boteco que nunca foi antes, vá naquele restaurante que achava caro, mas morria de vontade (nem que gaste além da conta, pelo menos uma vez), compre aquele vestido que ficou namorando na vitrine e que vai combinar com o par de sapatos que ganhou no último Natal. Enquanto o amor não vem, foque no seu trabalho, pense em um negócio que poderia virar empreendimento (nem que seja só sonho), invista em habilidades que você tem, mas que nunca desenvolveu. Enquanto o amor não vem, reúna os amigos em um final de semana na casa da sua família, cante no karaokê (ou no chuveiro), faça um bate e volta na praia, faça uma viagem mais longa e barata, se aventure em uma trilha, quem sabe sozinho. Enquanto o amor não vem, olhe para dentro de si, fique chocado, fique decepcionado, reconheça suas fraquezas, mas veja o quão maravilhoso é ter o poder de reescrever, de refazer, de realinhar, de se recolocar, de recomeçar, basta um pequena dose de querer (e é bem pequena mesmo, o resto flui!). E enquanto, tolo, espera fazendo coisas maravilhosas para você mesmo a chegada do amor, vai notar que ele chegou e você nem percebeu... Porque não tem que esperar, porque não tem hora certa. O momento é todo dia. Todos os dias, quando faz algo para si mesmo, você fortalece o amor mais genuíno e importante, que as pessoas - e livros de auto-ajuda - chamam de amor-próprio, mas eu prefiro chamar de "auto-amor". Não é por acaso que o poeta disse: "Para ser grande, sê inteiro". Quem acha que está no outro a possibilidade de amar (ou a razão disso) é um mutilado! Porque não é inteiro, é metade. Porque o amor não vem, o amor está em todas as coisas que fazemos. Porque o amor não está no outro, está em você. O outro é que chega, nunca para completar, mas para somar o amor dele ao seu e juntos caminharem. Lado a lado e adiante.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
O instante
Esse espaço é para ficções, mas hoje estou com vontade de escrever sobre um filme que pude assistir na Mostra Internacional de Cinema esse ano por um acaso: "O futuro", de Miranda July. Na verdade, ele renderia muitos posts, mas quero falar de um aspecto específico que o filme aborda com muita clareza: o instante. Mas não é qualquer instante. É o instante que antecede um momento irreversível. No filme, o personagem "congela" um segundo antes de quando sua mulher ia dizer que estava apaixonada por outra pessoa e que ia deixá-lo. Comecei a pensar nos instantes que antecedem uma má notícia, uma virada na história (um turning point, diriam os roteiristas) ou mesmo uma tragédia. Parece que, por um segundo, ou menos que isso, tudo se congela. Fica paralisado. E o mais maluco é que não há como mudar. Esse segundo é como um respiro, mas a coisa vai acontecer de qualquer maneira. Não há como evitar, reverter. Não há.
Quando um prédio vai ser implodido. Observe: depois de acionado o dispositivo, ele fica intacto, durante alguns milionésimos de segundos, para depois despencar sem dó, de uma só vez.
Nas histórias em quadrinhos isso também acontece. Em Frank Miller e seus quadros cheios de sexo, sangue e escuridão também mostram claquetes desse instante que antecede a destruição.
Nos desenhos animados, o coiote sempre fica suspenso no ar antes de cair de um precipício.
Quando algo muito drástico aparece diante de nós, repare, o acontecimento pode se concretizar ou ser interrompido, nos dois casos é lugar comum falar ou ouvir: por um triz. Por um triz que fulano escapou. Ou por um triz que não conseguimos evitar o pior.
Nos dois casos, ficamos com o quase.
Às vezes pensamos que por um segundo a coisa x aconteceu, a y deixou de acontecer, você se desencontrou, você se desencantou...enfim. E essa sensação de que por muito pouco poderíamos ter mudado o rumo das coisas é tão ilusória quanto infantil, na medida em que você nega que não é possível ter controle sobre tudo. Há escolhas e há fatos. Temos que procurar fazer as escolhas na medida em que os fatos acontecem. Não dá para prever os resultados. Há como escolher e viver.
No filme, é isso que o personagem tenta, em vão, fazer. Ele sente o silêncio que antecede o fim e, para evitar esse fim que não aceita, ele para tudo.
Mesmo que hipoteticamente isso fosse possível, não é algo inteligente a se fazer. Porque o fato está ali, pronto para acontecer e vai acontecer e, mais que isso, tem que acontecer. A partir do acontecimento, você precisa fazer suas escolhas. A vida é movimento, já diria um amigo meu e a Pina Bausch. Sempre que fizer com que esse movimento te leve para frente, vai conseguir perceber que realmente fez escolhas. Certas ou erradas? Não sei. Não dá para saber, não dá para prever. Não importa como as coisas vão se ajeitar. Não importa se, como no filme, o passado vai voltar e você vai resolver que, na verdade, sempre foi o que você quis ontem, hoje e amanhã. O que importa é que já não é mais a mesma coisa. Porque a vida é movimento, porque as pessoas mudaram, as estações mudaram. E mesmo que você sinta que algo voltou, isso é ilusório. Ele se destruiu em um instante para ser construído do zero. Ainda que sejam os mesmos tijolos, eles estarão configurados e serão dispostos de maneira diferente. Isso é vida! E por isso, pensando no instante, no momento, e no filósofo dos tempos modernos, o professor e tio torto Vitti tem muita razão em sua frase lapidar: "A vida é momentos!"
Nas histórias em quadrinhos isso também acontece. Em Frank Miller e seus quadros cheios de sexo, sangue e escuridão também mostram claquetes desse instante que antecede a destruição.
Nos desenhos animados, o coiote sempre fica suspenso no ar antes de cair de um precipício.
Quando algo muito drástico aparece diante de nós, repare, o acontecimento pode se concretizar ou ser interrompido, nos dois casos é lugar comum falar ou ouvir: por um triz. Por um triz que fulano escapou. Ou por um triz que não conseguimos evitar o pior.
Nos dois casos, ficamos com o quase.
Às vezes pensamos que por um segundo a coisa x aconteceu, a y deixou de acontecer, você se desencontrou, você se desencantou...enfim. E essa sensação de que por muito pouco poderíamos ter mudado o rumo das coisas é tão ilusória quanto infantil, na medida em que você nega que não é possível ter controle sobre tudo. Há escolhas e há fatos. Temos que procurar fazer as escolhas na medida em que os fatos acontecem. Não dá para prever os resultados. Há como escolher e viver.
No filme, é isso que o personagem tenta, em vão, fazer. Ele sente o silêncio que antecede o fim e, para evitar esse fim que não aceita, ele para tudo.
Mesmo que hipoteticamente isso fosse possível, não é algo inteligente a se fazer. Porque o fato está ali, pronto para acontecer e vai acontecer e, mais que isso, tem que acontecer. A partir do acontecimento, você precisa fazer suas escolhas. A vida é movimento, já diria um amigo meu e a Pina Bausch. Sempre que fizer com que esse movimento te leve para frente, vai conseguir perceber que realmente fez escolhas. Certas ou erradas? Não sei. Não dá para saber, não dá para prever. Não importa como as coisas vão se ajeitar. Não importa se, como no filme, o passado vai voltar e você vai resolver que, na verdade, sempre foi o que você quis ontem, hoje e amanhã. O que importa é que já não é mais a mesma coisa. Porque a vida é movimento, porque as pessoas mudaram, as estações mudaram. E mesmo que você sinta que algo voltou, isso é ilusório. Ele se destruiu em um instante para ser construído do zero. Ainda que sejam os mesmos tijolos, eles estarão configurados e serão dispostos de maneira diferente. Isso é vida! E por isso, pensando no instante, no momento, e no filósofo dos tempos modernos, o professor e tio torto Vitti tem muita razão em sua frase lapidar: "A vida é momentos!"
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Desvio
Todos os dias, ele dizia "Bom dia!". Ela, sempre muito sorridente, respondia prontamente. Pelo tom de voz, ele conseguia saber se ela estava triste, aborrecida ou feliz da vida. Ele a amava em segredo. Sabia quem eram seus amigos, seus gostos, seus horários e até mesmo a última compra parcelada que ela havia feito.
Ela era uma mulher sozinha, mas não solitária. Sempre estava cercada de gente. Tinha uma vida noturna agitada, sempre recebia amigos em jantares no seu apartamento. Todos os dias saía logo cedo e passava apressada por todo lugar, como que perdendo hora para um compromisso que nem havia marcado ainda.
Ela tinha urgência em viver. Ele, em contemplar.
Mas ela sentia falta de ter alguém que cuidasse dela, que a amasse, que dividisse momentos de delicada intimidade. Ele era o candidato. Mas isso era uma coisa só dele. Ela nunca saberia, por uma opção dele.
O brilho contemplativo se apagaria em um minuto se aquela devoção se fizesse pública.
Às vezes, ela descia para fumar um cigarro. Ele então se deleitava em companhia silenciosa. Cada tragada era tamanha fonte de prazer, que, por vezes, ele emitia algum grunhido. E ela, simpática, dizia: "que foi?" - e ria. E ele: "nada..." - num sussurro.
Um dia, chegou uma carta. Cheirava à perfume importado. Masculino. O remetente confirmava a suspeita: era um potencial adversário. Reconheceu o nome do rapaz, que já havia ido visitar a garota um ou duas vezes.
Não teve dúvidas: picou em mil pedaços e jogou fora.
Alguns dias depois, chegaram flores. E ele procedeu da mesma forma: jogou fora.
Mais alguns dias e o rapaz foi até o prédio. Perguntou pela jovem. Era ele quem estava na portaria aquele dia. Que sorte! E foi seco:
- Ela não mora mais aqui. Mudou-se essa semana.
- Sabe para onde ela foi?
- Não tenho a menor ideia.
- O sr. chegou a ver se ela recebeu uma carta e flores minhas?
- Sim. Eu é quem estava aqui. Ela não quis nem pegar. Jogou tudo fora.
- Sério?
- Sim.
- Vadia.
E o porteiro sussurrou:
- Trouxa!
E ela chegou, um pouco mais tarde e tudo estava ao normal. Afinal, nada demais tinha acontecido. A vida dela continuava assim, sem grandes acontecimentos. Ela estava decepcionada, mas não se deixava abater. Depois de uma semana sem notícias do rapaz, ela pensou: "Ah, laissez-aller, laissez-passer". No dia seguinte, ela saiu como todos os dias, respondeu ao bom dia, sorrindo. E esperando mais uma carta que nunca chegou, mais uma flor que nunca chegou, mais um amor que nunca chegou. O que restava era a adoração, fiel, mas que ela também nunca saberia existir.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Gases, menstruação e má digestão
Aos 7 anos
- Ah, filha, sei lá. O que você fez? - indagou
- Nada, mãe.
- Devem ser gases...
- Não, mãe! Tá dando pontada aqui - apontou, insistente, para o peito
- Ai, meu Deus! Então vamos ao médico.
Começou a chorar:
- Tem médico de coração?
A mãe olhou, confusa:
- Filha, o que você tem?
- É que o Pedrinho, o Pedrinho...eu fiz um desenho pro Pedrinho, mas ele riu, amassou e jogou no lixo - disse aos prantos.
Comovida, a mãe abraçou a filha:
- Ah, minha filha! Os meninos são bobos mesmo. E o Pedrinho mais ainda, por não perceber a garota legal que você é. Vai passar.
Aos 14 anos
- Oi, mãe - entrou na cozinha cabisbaixa - nem vou almoçar hoje.
- O que foi, minha filha?
- Eu tô com muita dor aqui - e apontou a região entre o estômago e a barriga.
- Não vai ficar menstruada, filha?
- Não! - respondeu, colocando a mão no peito.
- Mas ta doendo aí onde você colocou a mão?
- Também...
- Ah, filha, mas aí são os seios...normal, estão crescendo, eles doem. Eu tive dores até os 16 - teorizou a mãe.
- Não, mãe! É o ar que falta. E aí dói aqui, aqui mais embaixo, aqui do lado...
- Acho melhor a gente procurar um médico.
A garota hesitou. Como a maior parte dos adolescentes, não gostava de ter essas intimidades com a mãe, mas acabou caindo no choro:
- É o Pedro, mãe. Acredita que a gente foi junto para aquela festa e ele nem olhou na minha cara hoje.
- Ah, filha, ele não deve ter visto - disse a mãe, tentando amenizar.
- Ele viu sim, mãe. E sabe por que não me cumprimentou? Porque tava andando de mãos dadas com outra garota. Eu quero morrer.
Com compaixão, a mãe disse:
- Ai, filha...os garotos são assim mesmo. Eles demoram mais para amadurecer do que as meninas. Isso é normal. Ele é que é bobo por não estar com uma garota legal como você. Vai passar.
Aos 28 anos
- Nossa, mãe. Tá difícil hoje...
- O que foi, minha filha?
- Nossa, com o coração apertado. Tá difícil de respirar.
- Comeu alguma coisa que não caiu bem?
- É, pode ser mesmo. Estou um pouco enjoada...
- Vixi, filha, quando eu fiquei grávida de você sentia isso... - disse a mãe, toda animada para ser avó.
A filha, com um tom de voz sério, cortou o barato da mãe:
- Eu não estou grávida.
- É, filha, então não sei...Você está precisando de alguma coisa?
- Eu queria o Pedrão de volta, mas isso ninguém pode fazer - e desabou no choro
- Ai, filha. Ainda esse cara?
- É, mãe. Ele não quis nem falar comigo. Disse que não quer me ver e que é melhor assim.
Pegou a cabeça da filha e colocou no colo, como quando era criança:
- Ah, minha filha! Os homens parecem meninos, às vezes. E o Pedrão mais ainda, por não perceber a mulher incrível que você é. Vai passar.
Conclusão: Gases, menstruação, má digestão e coração partido provocam os mesmos sintomas. E essas dores e os conselhos (verdadeiros, mas sempre protocolares) não mudam em tempo algum.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
O caminho das borboletas
"O novo e o velho coexistem para que haja equilíbrio" - ela escreveu em seu pequeno caderno de viagens o que havia escutado em outro idioma no meio da multidão que visitava uma cidade em ruínas. Ficou pensando em seu avô, acamado após ser acometido por uma doença, que fez com que a família voltasse toda a atenção para aquela situação com a certeza de um término sem data marcada. Alguns, que há muito não se falavam, simplesmente porque a vida é assim, passaram a se encontrar quase diariamente, com o objetivo de prestar toda a assistência ao enfermo. A razão não era nada boa: doença. Mas alí havia sim a clara relação do velho com o novo. A doença motivou o resgate de uma referência que se perdeu na volatilidade do cotidiano. O velho dá suporte para o novo e o novo protege o velho, para que ele não esmoreça.
Absorta em seus pensamentos, se percebeu, em algum momento de consciência, que estava sozinha. Respirou fundo para recobrar a calma. Um pouco apreensiva, andou em círculos pela trilha. Gritou algumas palavras que não tiveram eco. Pensou na relação do novo e do velho. Pensou que, mais que o equilíbrio, essa relação seria um caminho.
A borboleta vive nessa relação do novo com o velho. Encapsulada no casulo está o corpo maduro que, na hora adequada, se livra da carapaça e, com asas novinhas, ganha o infinito das possibilidades.
"Devo seguir o caminho das borboletas" -pensou. E em poucos instantes, lá estavam elas, batendo as asas e a conduzindo para uma saída. Pouco importava se era a ideal, a esperada, a única. Mas era a possível naquele momento.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Alô? É o passado
Ficaram alguns meses sem notícia um do outro. Até que ele ligou para pedir uma ajuda: queria mudar de emprego. Da relação tinha ficado uma amizade muito bonita:
- Alô?
- Oi. Sou eu, tudo bem?
Na mesma hora, teve a sensação de ter o seguinte diálogo:
- Alô?
- Oi. Aqui é seu passado.
Achou que estava ficando maluca. Respirou e retomou a conversa:
- Oi. Tudo sim. Que surpresa essa ligação.
Ela tinha saudade dele. Não daquela relação homem-mulher, mas da amizade. Ela queria muito que ele fosse feliz.
- Estou precisando de uma força. Querendo procurar um trabalho melhor. Pensei que você podia me ajudar.
- Mas é claro.
E os dois conversaram. Riram e, no final, a pergunta:
- Mas, afinal, como você está?
- Ah, to feliz, mudei de casa, estou morando com uma garota legal...
Ela ficou muda. Achou que aquele sentimento estava no passado. Sentiu-se mal, tateou a mesa para procurar algo inexistente e acabou puxando uma cadeira.
- Que bacana! Parabéns. Se você está feliz é isso o que importa - disse muito sem graça.
Se despediram. Desligaram. Ela chorou. Sentiu vergonha. Ela não chorava por ainda amá-lo. Isso tinha ficado no passado. Ela chorava pelas escolhas que tinha feito e, agora, se arrependia. Pensou num outro diálogo possível com o passado:
- Alô?
- Oi. É o passado.
- Xô. Não quero mais falar com você, passou...
Mas isso não lhe era possível. O sentimento tinha invadido sem que ela permitisse. Ficou pensando que novamente havia sido preterida para realizar um de seus sonhos. O desejo dela, o que eles tinham planejado, estava acontecendo, mas com outra pessoa. Não era do sentimento por ele que ela tinha saudade. Mas dos planos. Ficou mastigando aquele 15 de julho, quando ele a procurou:
- Acho que poderíamos retomar, não sei...gosto de você. Ainda. Muito.
Ela não o deixou terminar de falar. Estava encantanda por outro alguém e simplesmente desprezou a oportunidade, que diferente da maior parte das vezes, aparecia novamente diante dela.
- É. Estou com outra pessoa. Na verdade, acho que a gente passou.
E agora sofria em pensar que havia feito a escolha errada. Porque o alguém pelo qual ela havia trocado ele, tinha feito a mesma coisa. Ou pior. Ela continuava sonhando as coisas para que outras pessoas realizassem no seu lugar.
- Alô?
- Oi. Sou eu, tudo bem?
Na mesma hora, teve a sensação de ter o seguinte diálogo:
- Alô?
- Oi. Aqui é seu passado.
Achou que estava ficando maluca. Respirou e retomou a conversa:
- Oi. Tudo sim. Que surpresa essa ligação.
Ela tinha saudade dele. Não daquela relação homem-mulher, mas da amizade. Ela queria muito que ele fosse feliz.
- Estou precisando de uma força. Querendo procurar um trabalho melhor. Pensei que você podia me ajudar.
- Mas é claro.
E os dois conversaram. Riram e, no final, a pergunta:
- Mas, afinal, como você está?
- Ah, to feliz, mudei de casa, estou morando com uma garota legal...
Ela ficou muda. Achou que aquele sentimento estava no passado. Sentiu-se mal, tateou a mesa para procurar algo inexistente e acabou puxando uma cadeira.
- Que bacana! Parabéns. Se você está feliz é isso o que importa - disse muito sem graça.
Se despediram. Desligaram. Ela chorou. Sentiu vergonha. Ela não chorava por ainda amá-lo. Isso tinha ficado no passado. Ela chorava pelas escolhas que tinha feito e, agora, se arrependia. Pensou num outro diálogo possível com o passado:
- Alô?
- Oi. É o passado.
- Xô. Não quero mais falar com você, passou...
Mas isso não lhe era possível. O sentimento tinha invadido sem que ela permitisse. Ficou pensando que novamente havia sido preterida para realizar um de seus sonhos. O desejo dela, o que eles tinham planejado, estava acontecendo, mas com outra pessoa. Não era do sentimento por ele que ela tinha saudade. Mas dos planos. Ficou mastigando aquele 15 de julho, quando ele a procurou:
- Acho que poderíamos retomar, não sei...gosto de você. Ainda. Muito.
Ela não o deixou terminar de falar. Estava encantanda por outro alguém e simplesmente desprezou a oportunidade, que diferente da maior parte das vezes, aparecia novamente diante dela.
- É. Estou com outra pessoa. Na verdade, acho que a gente passou.
E agora sofria em pensar que havia feito a escolha errada. Porque o alguém pelo qual ela havia trocado ele, tinha feito a mesma coisa. Ou pior. Ela continuava sonhando as coisas para que outras pessoas realizassem no seu lugar.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Remédio para um coração despedaçado
Um coração despedaçado entrou numa loja onde se vendia tudo que se pode imaginar em busca de conserto. Pegou a senha. A fila estava enorme. Ao chegar no balcão, olhou no crachá do atendente e estava escrito "Bom Conselho". Achou engraçado, um tanto quanto presunçoso, mas seguiu:
- Boa tarde, Seo Conselho, tem algo aí para um coração despedaçado?
- É vejo que o senhor está bem arrebentado. O que foi? Amor platônico, não correspondido, traído...
Interrompeu, pois o Conselho jamais adivinharia o problema daquele Coração:
- Amor não assumido.
- Uma fita crepe?
- Já tentei. Ela cedeu.
- Talvez algo mais forte, um superbonder?
- Vixi, nem te conto...esse me machucou mesmo. Porque colei forte, mas eu não resisti. E quando quebrei de novo, até arrebentou um pedacinho aqui ó - apontei mostrando para o Conselho meu ombro esquerdo.
- Uma muleta pode te ajudar ao menos a andar melhor...
- Também não dá certo. É paliativo e não conserta de vez. E o pior, ficaria mal acostumado.
- hum...cachaça?
- Ai, já tentei também. Me dei mal. Tá vendo esse buraco aqui? - apontei para meu estômago - então, úlcera que não virou cirrose por um triz...
- Entendo... - com certo ar de complacência, mas já sem paciência.
- O senhor não pode vir comigo?
- Eu?
- Sim, o senhor, Seo Conselho? Poderia me dar boas dicas...
- Conselho não se compra, nem se vende. Conselho apenas mostra possibilidades. Ao menos no meu caso, que sou o Bom Conselho.
O coração ficou calado, fitando aquele bom conselho, que tinha um ar intrigado, mas foi certeiro.
- O tempo. A solução para você é o tempo.
Quando fui questionar que não daria para viver daquele jeito, ele me interrompeu:
- Calma! Para seguir nessa jornada você vai precisar de algumas coisinhas.
Virou-se e foi até uma prateleira.
- Uma boa dose paciência para esperar; um potinho de lágrimas, porque uma hora ou outra você vai chorar; inúmeros sacos de risada, para compartilhar com seus amigos e perceber que a vida é boa demais; e um espelho.
- Um espelho?
- Sim, para você olhar sempre e perceber o quão lindo e especial você é. E dessa forma, recuperar o amor-próprio e aí então decidir se ainda quer que a espera te acompanhe ou se ela já pode seguir.
- Mas isso demoraria quanto?
- Depende do quanto vai levar para cicatrizar.
Pegou todas as coisas, passou no caixa e seguiu o caminho, ainda catando os pedaços, que vez ou outra se desprendem do corpo, mas ao menos um pouco mais fortalecido.
- Boa tarde, Seo Conselho, tem algo aí para um coração despedaçado?
- É vejo que o senhor está bem arrebentado. O que foi? Amor platônico, não correspondido, traído...
Interrompeu, pois o Conselho jamais adivinharia o problema daquele Coração:
- Amor não assumido.
- Uma fita crepe?
- Já tentei. Ela cedeu.
- Talvez algo mais forte, um superbonder?
- Vixi, nem te conto...esse me machucou mesmo. Porque colei forte, mas eu não resisti. E quando quebrei de novo, até arrebentou um pedacinho aqui ó - apontei mostrando para o Conselho meu ombro esquerdo.
- Uma muleta pode te ajudar ao menos a andar melhor...
- Também não dá certo. É paliativo e não conserta de vez. E o pior, ficaria mal acostumado.
- hum...cachaça?
- Ai, já tentei também. Me dei mal. Tá vendo esse buraco aqui? - apontei para meu estômago - então, úlcera que não virou cirrose por um triz...
- Entendo... - com certo ar de complacência, mas já sem paciência.
- O senhor não pode vir comigo?
- Eu?
- Sim, o senhor, Seo Conselho? Poderia me dar boas dicas...
- Conselho não se compra, nem se vende. Conselho apenas mostra possibilidades. Ao menos no meu caso, que sou o Bom Conselho.
O coração ficou calado, fitando aquele bom conselho, que tinha um ar intrigado, mas foi certeiro.
- O tempo. A solução para você é o tempo.
Quando fui questionar que não daria para viver daquele jeito, ele me interrompeu:
- Calma! Para seguir nessa jornada você vai precisar de algumas coisinhas.
Virou-se e foi até uma prateleira.
- Uma boa dose paciência para esperar; um potinho de lágrimas, porque uma hora ou outra você vai chorar; inúmeros sacos de risada, para compartilhar com seus amigos e perceber que a vida é boa demais; e um espelho.
- Um espelho?
- Sim, para você olhar sempre e perceber o quão lindo e especial você é. E dessa forma, recuperar o amor-próprio e aí então decidir se ainda quer que a espera te acompanhe ou se ela já pode seguir.
- Mas isso demoraria quanto?
- Depende do quanto vai levar para cicatrizar.
Pegou todas as coisas, passou no caixa e seguiu o caminho, ainda catando os pedaços, que vez ou outra se desprendem do corpo, mas ao menos um pouco mais fortalecido.
terça-feira, 5 de julho de 2011
O homem viciado em términos
Havia um homem que não gostava do início do relacionamento. Ele tinha uma fixação quase orgástica pelo término. E o mais curioso em sua obsessão: ele não tinha culhões para colocar um ponto final. Ele manipulava a coisa toda a tal ponto, que saía como coitadinho e abandonado. Mas tinha controle total da situação e não se envolvia. Tentava fazer as mulheres com quem se relacionava se sentirem culpadas pelo que sentiam. Um bem querer, por exemplo, virava algo maligno. Ciúmes e cobrança. Nada o fazia mudar de ideia. O término era a única certeza na vida dele. Como num ciclo vicioso, ele envolvia, se fazia apaixonável e depois, sem mais nem menos, pulava fora. Como ele dizia, cheio de empáfia: "Ah...aquela? Perdi o interesse".
Isso lhe dava certo ar de complacência diante do mundo. E até um conformismo que nos dá tranquilidade. Ele tinha total controle de todas as relações que estabelecia e sempre sabia o desfecho: o fim. Dessa forma, sofria menos. Ou melhor, não sofria nada.
Sofre quem tem expectativa. A previsibilidade deixa tudo claro e abrevia dúvidas ou eventuais sofrimentos. Mas o outro lado, o que espera, o que aposta, sofria com a frieza com que ele, simplesmente, deixava de considerar. Porque o fim estava posto, antes mesmo de começar.
Todas as mulheres com quem ele se envolvia eram loucas, desequilibradas e, ao menor sinal de um deslize, pronto: ele jogava isso na cara delas, mas de um jeito tão habilidoso que elas não percebiam que estavam sendo apontadas. Elas teriam certeza de que elas mesmas estavam fadadas a serem abandonadas e encerradas dentro da própria loucura. Era muita habilidade!
Ele ia levando a vida com fases sempre finitas. O começo, meio e fim era ininteligível para qualquer ser humano que tivesse metade de um coração. Não precisa nem mesmo ser inteiro... mas para ele era muito claro e definido.
Era mórbido como ele sentia prazer em ver as mulheres descabeladas, se perguntando: o que foi que eu fiz? Ele fazia cara de bom moço e dizia: "Você não fez nada. O problema sou eu". E ria muito. Por vezes calado, por vezes bem alto. Gargalhadas, quando a pobre moça já tinha saído da sua casa, levando debaixo do braço um livro ou camisa que deixara lá, despretensiosamente, num dia de semana.
Passou a anotar, religiosamente, todos os seus términos. Dessa forma, foi elaborando melhor as cenas que criava na sua cabeça e as justificativas para o fim, que se tornavam cada vez mais convincentes. Fez isso com pelo menos 150 mulheres ao longo da vida. Casou-se com algumas, para quem jurou amor eterno diante do padre, mas desde a noite de núpcias sabia a data que terminaria.
Como alguém viciado em términos, ele esperava, ansioso, o dia de sua morte. Sabia que era o fim, mas tinha excitação por saber o modo. Mas ela, implacável, lhe pregaria uma peça. No dia que seria o dia de sua morte, já bem doente, ela não veio. Foi a primeira vez que alguém dava em troca da espera dele, o desprezo. Desesperado, ele chamava pela morte, mas ela não dava a mínima. Ele queria saber onde estava a safada, mas ela não apareceu e condenou o homem viciado em términos a terminar sem fim. Ou como havia deixado terminar todas as histórias de sua vida: com indiferença.
Isso lhe dava certo ar de complacência diante do mundo. E até um conformismo que nos dá tranquilidade. Ele tinha total controle de todas as relações que estabelecia e sempre sabia o desfecho: o fim. Dessa forma, sofria menos. Ou melhor, não sofria nada.
Sofre quem tem expectativa. A previsibilidade deixa tudo claro e abrevia dúvidas ou eventuais sofrimentos. Mas o outro lado, o que espera, o que aposta, sofria com a frieza com que ele, simplesmente, deixava de considerar. Porque o fim estava posto, antes mesmo de começar.
Todas as mulheres com quem ele se envolvia eram loucas, desequilibradas e, ao menor sinal de um deslize, pronto: ele jogava isso na cara delas, mas de um jeito tão habilidoso que elas não percebiam que estavam sendo apontadas. Elas teriam certeza de que elas mesmas estavam fadadas a serem abandonadas e encerradas dentro da própria loucura. Era muita habilidade!
Ele ia levando a vida com fases sempre finitas. O começo, meio e fim era ininteligível para qualquer ser humano que tivesse metade de um coração. Não precisa nem mesmo ser inteiro... mas para ele era muito claro e definido.
Era mórbido como ele sentia prazer em ver as mulheres descabeladas, se perguntando: o que foi que eu fiz? Ele fazia cara de bom moço e dizia: "Você não fez nada. O problema sou eu". E ria muito. Por vezes calado, por vezes bem alto. Gargalhadas, quando a pobre moça já tinha saído da sua casa, levando debaixo do braço um livro ou camisa que deixara lá, despretensiosamente, num dia de semana.
Passou a anotar, religiosamente, todos os seus términos. Dessa forma, foi elaborando melhor as cenas que criava na sua cabeça e as justificativas para o fim, que se tornavam cada vez mais convincentes. Fez isso com pelo menos 150 mulheres ao longo da vida. Casou-se com algumas, para quem jurou amor eterno diante do padre, mas desde a noite de núpcias sabia a data que terminaria.
Como alguém viciado em términos, ele esperava, ansioso, o dia de sua morte. Sabia que era o fim, mas tinha excitação por saber o modo. Mas ela, implacável, lhe pregaria uma peça. No dia que seria o dia de sua morte, já bem doente, ela não veio. Foi a primeira vez que alguém dava em troca da espera dele, o desprezo. Desesperado, ele chamava pela morte, mas ela não dava a mínima. Ele queria saber onde estava a safada, mas ela não apareceu e condenou o homem viciado em términos a terminar sem fim. Ou como havia deixado terminar todas as histórias de sua vida: com indiferença.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O impulso
Sexta-feira, 10 de abril de 2009, 13h
A Avenida Sumaré, no sentido de Pinheiros, estava impraticável. Como isso poderia acontecer em pleno feriado? Na rádio informavam que um acidente bloqueava duas faixas da avenida. Um atropelamento. Eu seguia de bicicleta no sentido oposto e, movida por uma curiosidade quase mórbida, procurava a tal ocorrência. Quando cheguei, vi um corpo estendido no chão. Sirenes da polícia. Joguei a bicicleta no canteiro e fui mais perto. Os olhos estavam abertos, atônitos. Eles olhavam para mim. Os ossos, estraçalhados, faziam com que o tronco tivesse virado uma massa amorfa que abraçava o asfalto, entre duas faixas da avenida. Ele vestia camiseta branca. Acho que era Hering. A perna esquerda estava estirada, o joelho direiro levemente dobrado para fora. Ele vestia um jeans bem básico. Tipo Lee ou Levi's. Os peritos chegaram. Não tardou muito para o IML chegar também.
- O que foi?
- Suicídio. Aproximadamente 27 anos.
- Qual o nome dele?
- Não sei. Está sem documentos.
Olhei de novo para aquele rapaz. Cabelos castanhos, na altura dos ombros. Barba por fazer.
- Como ele pulou, o senhor sabe?
- Pela forma com que caiu foi de costas.
Olhei para o corpo no chão. Depois, olhei para cima. Muito alto era o viaduto da Avenida Dr. Arnaldo... Olhei novamente para o corpo. E o rosto. E enxerguei Jesus Cristo. Que loucura. Coloquei a mão na testa. E voltei a olhar. O que tanto afligia essa alma perturbada? Quem ele deixou para trás? Quem vai chorar por ele? Por que teria se matado justamente numa Sexta-feira Santa? E logo depois do almoço!
Domingo, 12 de abril de 2009, 9h
Domingo de Páscoa. Eu queria estar com a minha família, mas eu estava trabalhando. Eu passava pela Avenida Prestes Maia, um pouco depois da passagem subterrânea Tom Jobim, e vi um ônibus, na via de acesso para a avenida, na diagonal. Na traseira do coletivo, um carro com a frente completamente destruída. Era o que sobrou de um Celta preto. Parei um pouco adiante. Desci. A faixa de isolamento já separava o local da curiosidade dos populares, mas eu consegui entrar. Fiquei parada por alguns segundos tentando entender como aquilo tinha acontecido. Como um carro poderia entrar com tamanha violência. As portas estavam abertas e no chão alguns sinais de que o socorro havia passado por ali um pouco antes. Pensei: "Não há mais ninguém no carro e todos devem estar recebendo atendimento". Me aproximei e o que vi me causou primeiro estranheza, depois asco e, por fim, horror. O banco do passageiro foi violentamente invadido pela quina traseira do ônibus e, nesse cenário, era possível ver o que sobrou da frente de um carro misturado com o que sobrou de uma pessoa. Ou melhor, do que um dia foi uma pessoa. Custei acreditar. Tive que contemplar aquela cena terrível para que eu pudesse acreditar. Eu podia ver metade do rosto. O olho estava aberto. Assustado. O braço esquerdo largado com a palma da mão para cima. Era moreno. E tinha barba. Tive vontade de chorar, mas fiquei tão chocada com a revelação que as lágrimas não saíram.
- Onde estão os outros, policial?
- Foram levados ao pronto socorro. Eram cinco. Suspeita de embriaguez...
- Tá certo. Você vai encontrar sua família?
- Por que?
- Porque hoje é Páscoa. Se for encontrá-los, diga que mandei votos de um bom renascimento.
- Obrigada. Para sua família também.
Fiquei pensando que queria estar com a minha família. E isso, é claro, inclui os meus amigos que formam a família que a gente escolhe. Mas estava só. Pensei que era Páscoa e que isso significava a ressurreição. Será que ele ia renascer em outro plano? De onde estaria voltando? De uma festa que durou toda a madrugada? Será que ele quis estar ali, no banco do passageiro, ou simplesmente aconteceu? E os que ficaram, será que iriam renascer para o que a vida tem de bom?
----------------------------------
Duas mortes. Ambas movidas pelo impulso. Mas um de vida e outro de morte. O rapaz que pulou do viaduto queria fugir da vida, porque, por uma ou diversas razões que não interessam a mim nem a você, caro leitor, ela tinha ficado pesada demais para ele. E o contrário da vida é a morte. Simples assim. O rapaz que morreu no acidente de carro buscava a vida. Queria viver tudo, cada instante, com o máximo de gozo momentâneo que pudesse suportar. E na ânsia de buscar mais vida, acabou prepotente, e em um vacilo, encontrou a morte. Mas era vida que ele buscava. Me arrisco a dizer que essa é a única diferença. Porque nas duas histórias, invariavelmente, falamos de dois suicidas.
A Avenida Sumaré, no sentido de Pinheiros, estava impraticável. Como isso poderia acontecer em pleno feriado? Na rádio informavam que um acidente bloqueava duas faixas da avenida. Um atropelamento. Eu seguia de bicicleta no sentido oposto e, movida por uma curiosidade quase mórbida, procurava a tal ocorrência. Quando cheguei, vi um corpo estendido no chão. Sirenes da polícia. Joguei a bicicleta no canteiro e fui mais perto. Os olhos estavam abertos, atônitos. Eles olhavam para mim. Os ossos, estraçalhados, faziam com que o tronco tivesse virado uma massa amorfa que abraçava o asfalto, entre duas faixas da avenida. Ele vestia camiseta branca. Acho que era Hering. A perna esquerda estava estirada, o joelho direiro levemente dobrado para fora. Ele vestia um jeans bem básico. Tipo Lee ou Levi's. Os peritos chegaram. Não tardou muito para o IML chegar também.
- O que foi?
- Suicídio. Aproximadamente 27 anos.
- Qual o nome dele?
- Não sei. Está sem documentos.
Olhei de novo para aquele rapaz. Cabelos castanhos, na altura dos ombros. Barba por fazer.
- Como ele pulou, o senhor sabe?
- Pela forma com que caiu foi de costas.
Olhei para o corpo no chão. Depois, olhei para cima. Muito alto era o viaduto da Avenida Dr. Arnaldo... Olhei novamente para o corpo. E o rosto. E enxerguei Jesus Cristo. Que loucura. Coloquei a mão na testa. E voltei a olhar. O que tanto afligia essa alma perturbada? Quem ele deixou para trás? Quem vai chorar por ele? Por que teria se matado justamente numa Sexta-feira Santa? E logo depois do almoço!
Domingo, 12 de abril de 2009, 9h
Domingo de Páscoa. Eu queria estar com a minha família, mas eu estava trabalhando. Eu passava pela Avenida Prestes Maia, um pouco depois da passagem subterrânea Tom Jobim, e vi um ônibus, na via de acesso para a avenida, na diagonal. Na traseira do coletivo, um carro com a frente completamente destruída. Era o que sobrou de um Celta preto. Parei um pouco adiante. Desci. A faixa de isolamento já separava o local da curiosidade dos populares, mas eu consegui entrar. Fiquei parada por alguns segundos tentando entender como aquilo tinha acontecido. Como um carro poderia entrar com tamanha violência. As portas estavam abertas e no chão alguns sinais de que o socorro havia passado por ali um pouco antes. Pensei: "Não há mais ninguém no carro e todos devem estar recebendo atendimento". Me aproximei e o que vi me causou primeiro estranheza, depois asco e, por fim, horror. O banco do passageiro foi violentamente invadido pela quina traseira do ônibus e, nesse cenário, era possível ver o que sobrou da frente de um carro misturado com o que sobrou de uma pessoa. Ou melhor, do que um dia foi uma pessoa. Custei acreditar. Tive que contemplar aquela cena terrível para que eu pudesse acreditar. Eu podia ver metade do rosto. O olho estava aberto. Assustado. O braço esquerdo largado com a palma da mão para cima. Era moreno. E tinha barba. Tive vontade de chorar, mas fiquei tão chocada com a revelação que as lágrimas não saíram.
- Onde estão os outros, policial?
- Foram levados ao pronto socorro. Eram cinco. Suspeita de embriaguez...
- Tá certo. Você vai encontrar sua família?
- Por que?
- Porque hoje é Páscoa. Se for encontrá-los, diga que mandei votos de um bom renascimento.
- Obrigada. Para sua família também.
Fiquei pensando que queria estar com a minha família. E isso, é claro, inclui os meus amigos que formam a família que a gente escolhe. Mas estava só. Pensei que era Páscoa e que isso significava a ressurreição. Será que ele ia renascer em outro plano? De onde estaria voltando? De uma festa que durou toda a madrugada? Será que ele quis estar ali, no banco do passageiro, ou simplesmente aconteceu? E os que ficaram, será que iriam renascer para o que a vida tem de bom?
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Duas mortes. Ambas movidas pelo impulso. Mas um de vida e outro de morte. O rapaz que pulou do viaduto queria fugir da vida, porque, por uma ou diversas razões que não interessam a mim nem a você, caro leitor, ela tinha ficado pesada demais para ele. E o contrário da vida é a morte. Simples assim. O rapaz que morreu no acidente de carro buscava a vida. Queria viver tudo, cada instante, com o máximo de gozo momentâneo que pudesse suportar. E na ânsia de buscar mais vida, acabou prepotente, e em um vacilo, encontrou a morte. Mas era vida que ele buscava. Me arrisco a dizer que essa é a única diferença. Porque nas duas histórias, invariavelmente, falamos de dois suicidas.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Gênesis
A Bíblia diz: "No princípio era o verbo, e o verbo se fez carne e habitou no meio de nós". Foi mais ou menos assim que aconteceu. Ele precisava ser criado de novo, porque havia se tornado uma pessoa digna de pena. E Deus, em sua criação, só criou a pena para as aves. Essa outra pena era criação dos homens...
Deus disse: "Faça-se a luz!" Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou a luz de dia. E as trevas de noite: foi o primeiro dia.
Ele estava péssimo porque tinha levado um baita pé na bunda da mulher por quem tinha brigado com todas as pessoas que o admiravam. E o agravante: na escadaria da igreja. Quanta humilhação. Tudo que ele queria era esquecer. Saiu com várias garotas. Algumas interessantes, outras nem tanto. Foi quando ele viu a perfeita sobreposição do preto sobre o vermelho na pista de dança. Era o vestido preto e os cabelos vermelhos que balançavam ao som de qualquer coisa que nem importava tanto assim. Tudo ficou escuro. Ele nunca tinha visto nada igual e não titubeou em ir ao encontro da luz, que emanava do rosto doce daquela mulher. Era a pedra fundamental para o recomeço.
Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam debaixo do firmamento daquelas que estavam por cima. E chamou o firmamento céu. Deus disse: "Que as águas que estão debaixo dos céus se juntem em um mesmo lugar e apareça então o elemento árido". Deus chamou o árido de terra e o ajutamento das águas de mar: foi o segundo dia.
Ele se sentia especial ao lado dela. E a fazia se sentir da mesma forma. Mas ele para ela, ao menos naquele momento, era uma estrela. E ser uma estrela não é tão especial assim. Afinal, há tantas no céu. Para ele, a mulher dos cabelos vermelhos, que permanecia tão enigmática, seria a lua, não fosse pela alegria, que a deixava mais parecida com o sol. Mas isso pouco importava, porque em ela sendo o sol e a lua, ele teria 24 horas para ficar em sua companhia. A dissonância entre o desejo e a realidade começou a aparecer cada vez mais.
Deus disse: "Produza a terra plantas, ervas que contenham semente e árvores frutíferas que dêem fruto e o fruto contenha a sua semente": foi o terceiro dia.
Um queria que aquele encontro do acaso rendesse frutos. O outro pensava ser uma semente que poderia ou não germinar. Mas seria necessário o tempo para frutificar e colher. Ela decidiu que, independentemente do que ia acontecer, ia semear. Passou a aceitar aquelas raízes se mostrando cada dia mais fortes, mais densas, mais enroladas. Ele tomava, devagar, as rédeas da situação. Se abriu, mostrou seus medos e aflições. E também seus anseios e sonhos. Como numa simbiose, ela se embriagou do que vinha das entranhas dele: primeiro a seiva bruta, depois a elaborada.
Deus disse: "Façam-se luzeiros no firmamento para separar o dia e a noite, para que sirvam de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos": foi o quarto dia.
Ele pensava nela dia e noite e se sentia fortalecido cada dia mais. Recebia mimos de uma mulher especial, que o tornava finalmente um ser amado. Estava se reconstruindo. Mas em só receber, esqueceu-se de dar. E ela foi ficando tão frágil quanto uma lua minguante. Restava ainda o sol. Mas a lua, que carrega certa dose de mistério e melancolia, ele não enxergava mais nela. Era tanta luz que ele ficou ofuscado. Sem mistério foi perdendo devagar o interesse. Mas o esforço dela para agradá-lo ainda surtiria efeito.
Deus disse: "Pululem as águas de uma multidão de seres vivos e voem aves sobre a terra, debaixo do firmamento dos céus. Futificai e multiplicai e enchei as águas do mar e a terra": quinto dia.
Na tentativa de resgatar o instante passado, ela passou a fazer as vontades dele. Todas elas. Mas em alguns momentos, extrapolava, perdia a linha. Ela não comprava uma garrafa do uísque preferido dele, por exemplo. Ela comprava pelo menos três. E 8 e 12 anos que nada. Era, no mínimo, maior de idade. A extravagância dela atraia ele. E ele achou que estava apaixonado de novo. E sentiu medo do que estava frutificando. Ficou aflito em ter seus galhos podados, seus frutos retirados e pisoteados por alguém sem coração. E começou se fechar àquilo que nascia de tão bonito entre os dois.
Deus disse: "Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens. E façamos o homem a nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre todos os animais que habitam a terra. Deus criou o homem a sua imagem. Criou o homem e a mulher: sexto dia.
Não levou muito tempo para discernir as coisas ao seu modo. Era um novo homem. Ela tinha sido simplesmente a responsável pela criação desse homem seguro, amado e feliz. Mas as tentativas impulsivas de demonstrar seu apreço àquele novo e admirável homem acabaram um pouco atrapalhadas. O ego tão inflado dele acabou se tornando maior do que o que ela representava. Na verdade, ela passou a ser para ele o significado de uma mudança. E para mudar de vez, teria que deixar até a razão do seu renascimento para trás. Ele passou a ser para ela um objeto de desejo sobre o qual queria ter o controle que um dia tivera, mas não tinha mais. Ele agora caminhava pelas próprias pernas. Ela estava perdida em uma paixão que criou vida própria. E não era a nova vida dele. Nem dela. Era um sentimento que, de tão forte e não vivido até que se esgotasse, criou vida própria. E deveria ser degustado, vivido, contemplado. Mas não foi.
Tendo Deus terminado a obra que tinha feito, descansou: sétimo dia.
O sentimento descansa em algum lugar dentro dos dois. Mas ele, com certa dose de egoismo, quer mesmo continuar olhando para o homem em que se transformou com a ajuda dela. Ela procura em toda pesssoa com quem se envolve uma lembrança que nem teve ao menos tempo de ter dele. Uma semana durou aquela paixão que para um significou libertação e para o outro prisão. Mas isso não foi criação de Deus. Isso é coisa dos homens.
Homenagem a uma história de paixão tão sincera quanto triste que ouvi um dia desses, por aí. Deixo apenas registrado que ela, embora ainda tendo a ferida exposta e aberta, vai cicatrizar. Ele evitou ficar ferido pelo medo de passar o que já havia passado. Mas devemos nos lembrar: nem as histórias, nem as pessoas são iguais.
Deus disse: "Faça-se a luz!" Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou a luz de dia. E as trevas de noite: foi o primeiro dia.
Ele estava péssimo porque tinha levado um baita pé na bunda da mulher por quem tinha brigado com todas as pessoas que o admiravam. E o agravante: na escadaria da igreja. Quanta humilhação. Tudo que ele queria era esquecer. Saiu com várias garotas. Algumas interessantes, outras nem tanto. Foi quando ele viu a perfeita sobreposição do preto sobre o vermelho na pista de dança. Era o vestido preto e os cabelos vermelhos que balançavam ao som de qualquer coisa que nem importava tanto assim. Tudo ficou escuro. Ele nunca tinha visto nada igual e não titubeou em ir ao encontro da luz, que emanava do rosto doce daquela mulher. Era a pedra fundamental para o recomeço.
Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam debaixo do firmamento daquelas que estavam por cima. E chamou o firmamento céu. Deus disse: "Que as águas que estão debaixo dos céus se juntem em um mesmo lugar e apareça então o elemento árido". Deus chamou o árido de terra e o ajutamento das águas de mar: foi o segundo dia.
Ele se sentia especial ao lado dela. E a fazia se sentir da mesma forma. Mas ele para ela, ao menos naquele momento, era uma estrela. E ser uma estrela não é tão especial assim. Afinal, há tantas no céu. Para ele, a mulher dos cabelos vermelhos, que permanecia tão enigmática, seria a lua, não fosse pela alegria, que a deixava mais parecida com o sol. Mas isso pouco importava, porque em ela sendo o sol e a lua, ele teria 24 horas para ficar em sua companhia. A dissonância entre o desejo e a realidade começou a aparecer cada vez mais.
Deus disse: "Produza a terra plantas, ervas que contenham semente e árvores frutíferas que dêem fruto e o fruto contenha a sua semente": foi o terceiro dia.
Um queria que aquele encontro do acaso rendesse frutos. O outro pensava ser uma semente que poderia ou não germinar. Mas seria necessário o tempo para frutificar e colher. Ela decidiu que, independentemente do que ia acontecer, ia semear. Passou a aceitar aquelas raízes se mostrando cada dia mais fortes, mais densas, mais enroladas. Ele tomava, devagar, as rédeas da situação. Se abriu, mostrou seus medos e aflições. E também seus anseios e sonhos. Como numa simbiose, ela se embriagou do que vinha das entranhas dele: primeiro a seiva bruta, depois a elaborada.
Deus disse: "Façam-se luzeiros no firmamento para separar o dia e a noite, para que sirvam de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos": foi o quarto dia.
Ele pensava nela dia e noite e se sentia fortalecido cada dia mais. Recebia mimos de uma mulher especial, que o tornava finalmente um ser amado. Estava se reconstruindo. Mas em só receber, esqueceu-se de dar. E ela foi ficando tão frágil quanto uma lua minguante. Restava ainda o sol. Mas a lua, que carrega certa dose de mistério e melancolia, ele não enxergava mais nela. Era tanta luz que ele ficou ofuscado. Sem mistério foi perdendo devagar o interesse. Mas o esforço dela para agradá-lo ainda surtiria efeito.
Deus disse: "Pululem as águas de uma multidão de seres vivos e voem aves sobre a terra, debaixo do firmamento dos céus. Futificai e multiplicai e enchei as águas do mar e a terra": quinto dia.
Na tentativa de resgatar o instante passado, ela passou a fazer as vontades dele. Todas elas. Mas em alguns momentos, extrapolava, perdia a linha. Ela não comprava uma garrafa do uísque preferido dele, por exemplo. Ela comprava pelo menos três. E 8 e 12 anos que nada. Era, no mínimo, maior de idade. A extravagância dela atraia ele. E ele achou que estava apaixonado de novo. E sentiu medo do que estava frutificando. Ficou aflito em ter seus galhos podados, seus frutos retirados e pisoteados por alguém sem coração. E começou se fechar àquilo que nascia de tão bonito entre os dois.
Deus disse: "Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens. E façamos o homem a nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre todos os animais que habitam a terra. Deus criou o homem a sua imagem. Criou o homem e a mulher: sexto dia.
Não levou muito tempo para discernir as coisas ao seu modo. Era um novo homem. Ela tinha sido simplesmente a responsável pela criação desse homem seguro, amado e feliz. Mas as tentativas impulsivas de demonstrar seu apreço àquele novo e admirável homem acabaram um pouco atrapalhadas. O ego tão inflado dele acabou se tornando maior do que o que ela representava. Na verdade, ela passou a ser para ele o significado de uma mudança. E para mudar de vez, teria que deixar até a razão do seu renascimento para trás. Ele passou a ser para ela um objeto de desejo sobre o qual queria ter o controle que um dia tivera, mas não tinha mais. Ele agora caminhava pelas próprias pernas. Ela estava perdida em uma paixão que criou vida própria. E não era a nova vida dele. Nem dela. Era um sentimento que, de tão forte e não vivido até que se esgotasse, criou vida própria. E deveria ser degustado, vivido, contemplado. Mas não foi.
Tendo Deus terminado a obra que tinha feito, descansou: sétimo dia.
O sentimento descansa em algum lugar dentro dos dois. Mas ele, com certa dose de egoismo, quer mesmo continuar olhando para o homem em que se transformou com a ajuda dela. Ela procura em toda pesssoa com quem se envolve uma lembrança que nem teve ao menos tempo de ter dele. Uma semana durou aquela paixão que para um significou libertação e para o outro prisão. Mas isso não foi criação de Deus. Isso é coisa dos homens.
Homenagem a uma história de paixão tão sincera quanto triste que ouvi um dia desses, por aí. Deixo apenas registrado que ela, embora ainda tendo a ferida exposta e aberta, vai cicatrizar. Ele evitou ficar ferido pelo medo de passar o que já havia passado. Mas devemos nos lembrar: nem as histórias, nem as pessoas são iguais.
domingo, 22 de maio de 2011
Quando o amor vira nojo
Quando o amor acaba (ou se transforma, como preferem dizer os mais otimistas)ele pode virar resignação, culpa ou nojo. A transformação do amor estava começando e, embora com forte resistência, se estabelecia como verdade irreversível.
Há uma fábula que expressa essa transformação. Uma raposa que queria pegar uvas em uma videira e não conseguia. Uvas suculentas. E simplesmente, quando desistiu, disse que elas estavam verdes. Arrumou uma desculpa para se conformar com o fato de não ter conseguido as tais uvas. Mas elas não estavam verdes. Elas estavam ótimas para o consumo. Foi a forma que ela conseguiu, não esquecer, mas aceitar, não sem os sentimentos que o fracasso provoca, que não tinha conseguido pegar as tais uvas.
Mas havia outra raposa que queria pegar as uvas. E conseguiu pegar uma ou outra, mas o cacho todo ela nunca conseguiu e virou chacota de outras raposas que cobravam potência e sucesso no objetivo. Ficou a vida toda se martirizando por ser supostamente um fracasso na arte de surrupiar umas uvas. Não se perguntou uma única vez sequer se as uvas estavam realmente suculentas. Ou ainda, se elas se colocavam como inatingíveis, permanecendo nos locais mais altos das videiras, de propósito. Ou por fim, não de perguntou que raios as outras raposas ficavam metendo o bedelho nas vontades dela. Deveria ter mandado todas catarem uvas ou coquinhos. Mas não! Tomou para si o fracasso de toda uma plantação... A culpa era toda dela, a raposa "loser".
As uvas estavam verdes. Uma outra raposa esperou pacientemente o tempo necessário até que elas amadurecessem. Nesse tempo, estabeleceu uma relação até de intimidade com as uvas, que tinham a maturação muito desejada e acompanhada diariamente por aquela raposa, que, com o chegar do tempo certo, passou a observar - alertada por outras raposas - que aquele cacho de uva estava se disponibilizando para outras, embora tivesse feito um trato de que seria dela. A raposa não deu ouvidos e se esforçou para alcançar as uvas, que, olhadas de baixo, pareciam muito suculentas. Maduras. Ao pegá-las e, prestes a devorar com muito apetite uma a uma, viu que a parte de cima delas estava podre. De lá saíam bichos que ela nunca tinha visto, que a parte aparentemente saudável havia escondido. Teve nojo. Depois se sentiu enganada. E acabou por vomitar toda a espera nas uvas, que ficaram encobertas por aquela gosma ressentida. E viraram adubo.
Há uma fábula que expressa essa transformação. Uma raposa que queria pegar uvas em uma videira e não conseguia. Uvas suculentas. E simplesmente, quando desistiu, disse que elas estavam verdes. Arrumou uma desculpa para se conformar com o fato de não ter conseguido as tais uvas. Mas elas não estavam verdes. Elas estavam ótimas para o consumo. Foi a forma que ela conseguiu, não esquecer, mas aceitar, não sem os sentimentos que o fracasso provoca, que não tinha conseguido pegar as tais uvas.
Mas havia outra raposa que queria pegar as uvas. E conseguiu pegar uma ou outra, mas o cacho todo ela nunca conseguiu e virou chacota de outras raposas que cobravam potência e sucesso no objetivo. Ficou a vida toda se martirizando por ser supostamente um fracasso na arte de surrupiar umas uvas. Não se perguntou uma única vez sequer se as uvas estavam realmente suculentas. Ou ainda, se elas se colocavam como inatingíveis, permanecendo nos locais mais altos das videiras, de propósito. Ou por fim, não de perguntou que raios as outras raposas ficavam metendo o bedelho nas vontades dela. Deveria ter mandado todas catarem uvas ou coquinhos. Mas não! Tomou para si o fracasso de toda uma plantação... A culpa era toda dela, a raposa "loser".
As uvas estavam verdes. Uma outra raposa esperou pacientemente o tempo necessário até que elas amadurecessem. Nesse tempo, estabeleceu uma relação até de intimidade com as uvas, que tinham a maturação muito desejada e acompanhada diariamente por aquela raposa, que, com o chegar do tempo certo, passou a observar - alertada por outras raposas - que aquele cacho de uva estava se disponibilizando para outras, embora tivesse feito um trato de que seria dela. A raposa não deu ouvidos e se esforçou para alcançar as uvas, que, olhadas de baixo, pareciam muito suculentas. Maduras. Ao pegá-las e, prestes a devorar com muito apetite uma a uma, viu que a parte de cima delas estava podre. De lá saíam bichos que ela nunca tinha visto, que a parte aparentemente saudável havia escondido. Teve nojo. Depois se sentiu enganada. E acabou por vomitar toda a espera nas uvas, que ficaram encobertas por aquela gosma ressentida. E viraram adubo.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
O expulso
Ele colecionava conquistas. Antes se sentia inválido e rejeitado. De repente, como num passe de mágica, passou a ser o conquistador. As mulheres caíam aos seus pés. Ele passou a se sentir desejado e amado. Mas eram relações superficiais. Não passavam de algumas saídas. Era o que alimentava a sua frágil e recém conquistada segurança. E que o tornava ainda mais covarde.
Continuava vazio. Sempre vivera daquela forma. O destino o levou até aquele momento. Ele não teve capacidade, em toda a sua vida, de fazer uma escolha sequer. Até as decisões mais importantes, que pareciam terem sido opções dele, eram circunstanciais, fruto de situações inevitáveis. Era justamente a falta de opção. Ele se deixava levar. E em se deixando levar, nunca havia vivido algo verdadeiro. E passara a vida inteira na tentativa de mostrar para os outros que estava conseguindo ser uma pessoa realizada.
Naquele momento de alta cotação no mercado de relacionamentos, passou a investir no sexo diversificado. Chegou a acreditar piamente que a rotatividade da cama dele iria resolver os problemas que carregava desde o final da adolescência. Quiçá, desde a infância, com uma mãe autoritária e superprotetora.
Mas, com o tempo, aquele vazio não passava. E o fato de, na verdade, ele nunca ter gostado nem dele mesmo, passou a ficar cada vez mais forte. A única verdade é que ele não se aceitava. Tentava, ao se deixar levar, se expulsar de si mesmo. Tendo o destino como o responsável pela sua vida, tirava das suas costas o peso de qualquer decisão.
Foi percebendo que não estava feliz. Não era e nem nunca tinha sido feliz, nem por um instante. A busca o acompanhou por toda a vida. Apenas no leito de morte teve sua revelação. Naquele lugar, decidiu morrer. A morte, ao que parece, não é algo que decidimos. Mas nesse caso aconteceu. E, já morto, percebeu que sua primeira e única opção em vida tinha sido mais uma vez motivada pelas mesmas razões de suas não escolhas: pelo desejo de se livrar de si mesmo.
Continuava vazio. Sempre vivera daquela forma. O destino o levou até aquele momento. Ele não teve capacidade, em toda a sua vida, de fazer uma escolha sequer. Até as decisões mais importantes, que pareciam terem sido opções dele, eram circunstanciais, fruto de situações inevitáveis. Era justamente a falta de opção. Ele se deixava levar. E em se deixando levar, nunca havia vivido algo verdadeiro. E passara a vida inteira na tentativa de mostrar para os outros que estava conseguindo ser uma pessoa realizada.
Naquele momento de alta cotação no mercado de relacionamentos, passou a investir no sexo diversificado. Chegou a acreditar piamente que a rotatividade da cama dele iria resolver os problemas que carregava desde o final da adolescência. Quiçá, desde a infância, com uma mãe autoritária e superprotetora.
Mas, com o tempo, aquele vazio não passava. E o fato de, na verdade, ele nunca ter gostado nem dele mesmo, passou a ficar cada vez mais forte. A única verdade é que ele não se aceitava. Tentava, ao se deixar levar, se expulsar de si mesmo. Tendo o destino como o responsável pela sua vida, tirava das suas costas o peso de qualquer decisão.
Foi percebendo que não estava feliz. Não era e nem nunca tinha sido feliz, nem por um instante. A busca o acompanhou por toda a vida. Apenas no leito de morte teve sua revelação. Naquele lugar, decidiu morrer. A morte, ao que parece, não é algo que decidimos. Mas nesse caso aconteceu. E, já morto, percebeu que sua primeira e única opção em vida tinha sido mais uma vez motivada pelas mesmas razões de suas não escolhas: pelo desejo de se livrar de si mesmo.
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