quinta-feira, 26 de julho de 2007

Eu tenho pena de mim

Eu tenho pena de mim, porque eu vivo no Brasil.

Forte isso não? É com isso que tenho tomado contato nesses últimos dias frios de julho. Acontecimentos fortes, declarações fortes, acusações fortes, dor forte e sujeira, muita sujeira forte, que nem com muita cândida é possível remover. Por isso, optei por um início de texto igualmente forte, proporcionalmente violento.

Poderia relatar o lamentável desatre aéreo do qual fomos espectadores há pouco mais de uma semana. Poderia elencar os possíveis fatores que culminaram no acidente que vitimou quase 200 pessoas. Poderia listar os prováveis culpados e de quebra dar sugestões de castigos para os infelizes. Poderia propor uma reflexão acerca do sofrimento de todos que perderam seus amigos, seus amores, seus pedaços de vida e, que em muitos casos, não conseguirão tampouco um vestígio, ainda que da morte, da pessoa para cumprir o ritual cristão de enterrar seus mortos.
Mas no país em que a maior parte dos verbos proferidos pelas autoridade termina em 'ria', resolvi variar.

Há que se separar o joio do trigo, para usar uma desgastada citação bíblica. Mas não vejo trigo, apenas joio. E um joio fedido e podre.

Com mais essa catástrofe que tirou a vida e o sorriso de mais de uma centena de brasileiros, percebo, cada vez mais claramente, que tenta-se curar uma ferida aberta não identificada e de forma não assertiva. O Brasil sofre de uma doença que encheu de escaras a governabilidade do país. A nação verde-amarela está sem administração. Essa é a ferida aberta e pustulenta. E ela é que gera tantos outros problemas, que vemos diariamente no noticiário, nos comentários de qualquer idiota com um mínimo de consciência na fila do supermercado.

Essa é a reação em cadeia. Uma doença leva a outra. Escaras que não se curam, viram feridas ainda maiores, que enchem de bactérias e podem colocar fim ao organismo em questão.

Fala-se da pista, do avião, de contigente dos aeroportos desse gigante país, mas pouco se fala que toda essa lambança, toda essa crise vem de lá longe. Pouco se fala que o aparelhamento do Estado imposto pelo digníssimo sr. presidente Lula, tirou de cargos que exigem especialidade os profissionais e os encheu de políticos. De comadres e compadres, como dizem aqui no interior, que comem churrasco com o presidente na Granja do Torto. Nada contra churrasco, é claro. Ainda mais porque deve rolar só picanha das boas. Ao menos nosso dinheiro, nesse caso, está sendo bem investido.

domingo, 8 de julho de 2007

A moto seguia em alta velocidade pela estrada, à esquerda da pista. Estrada boa! Duplicada, pista recapeada recentemente. Rumava a esmo. O farol apagado: não queria ser notado. Cem metros adiante, na mesma estrada, um treminhão transportava toneladas de cana. Queria chegar logo, mas tinha consciência que seu lugar era ali, à direita. Mas viu um obstáculo, não conseguia identificar. Deu luz alta e nada. Saiu para a esquerda, afinal, o espelho retrovisor dizia que ninguém vinha atrás. A moto pensou que dava tempo e resolveu nem avisar. Não deu. Um barulho. O caminhoneiro nem ligou, pensou que alguma feta de cana caíra no chão. Mas um barulho de ferro arrastando mantinha-se insistente. Foi para o acostamento e o que viu foi horror: um caminho de sangue, que terminava na sua terceira carreta, onde havia também pedaços de ferro preso e pedaços humanos.
Vomitou. Tentou desvencilhar o caminhão daqueles restos. Na seqüência, um ônibus passava. Reduziu a velocidade e baixou os faróis, na tentativa de saber o que havia ocorrido. A cena chama atenção de uma passageira do ônibus, que se aproxima da janela. O que se ouve é um grito de pavor. O boné, os pedaços de camiseta e a placa da moto: era seu o sangue derramado pela estrada. Seu filho era quem dirigia a moto.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Um ano. Tantas coisas, tantas pessoas, tantas horas. Fiquei pensando sobre tudo o que tinha me acontecido nesse tempo. Passei por dois empregos, tomei calote, fui para Salvador com pouco dinheiro no bolso, conheci Dona Nicinha, me apaixonei duas vezes e nenhuma deu certo, gastei boa parte do meu salário em bebida, dividi minhas horas com pessoas fantásticas, outras nem tanto, ganhei presentes bacanas, outros nem tanto, não dormi na minha cama umas várias vezes, descobri que nem sempre aquele que sorri quer teu bem, que ter unhas compridas só tem graça se forem pintadas de vermelho, conheci alguém que hoje amo, entendi que amigo de verdade não cobra, compreende.

E o que, essencialmente, fiz? Será que vivi ou fui aceitando o que me era designado? Agora é vida nova.

Não sabia que morrer doía tanto!

apesar do atraso de alguns dias, o texto se refere aos meus recentes 22 aninhos

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Crescer: perder inocência, ganhar poder

Uma breve discussão sobre dois curtas: "Vinil Verde" e "Da janela do meu quarto"

A perda da inocência, ameaça a um poder simbólico socialmente construído, o olhar para o desconhecido e a descoberta do poder. Não, não é de política que “Vinil verde” e “Da janela do meu quarto” falam. É de como os papéis sociais, quando articulados para sustentar o poder, são uma espécie de barreira ao crescimento e à descoberta do novo.

Quando “Vinil verde” conta a história de mãe e filha mostra o que acontece com todo ser humano que vive em sociedade, submetido as relações de poder sustentadas pelas funções sociais. Os cortes entre cenas criam a sensação de temporalidade na ação das personagens, contrapondo-se a rotina na vida das duas, símbolo de segurança e controle por parte da mãe, que foi em certo momento quebrada pela filha.

Repleto de figurativismos, a leitura do filme exige um olhar atento. A caixa preta, presente da mãe para a filha, instiga na menina curiosidade pelo novo e fomenta o processo de descoberta de um mundo além do seu quarto, sua cama e suas bonecas. Quando a filha desobedece às ordens da mãe e ouve o vinil verde, há uma quebra de confiança e um processo de conquista de independência: a garota adquire poder de decisão e responsabilidade por suas atitudes. Partindo da construção de uma narrativa simbólica, a mãe volta do trabalho sem as mãos e sem as pernas e, a medida que isso acontece, os laços entre as duas se estreitam: a menina começa a ficar cada vez mais mãe e menos filha. Fazendo uma apropriação do velho dito popular, a filha já pode “andar com as próprias pernas”.

A menina ultrapassa os limites da porta da casa e se depara com a mãe em franca agonia, que naquele momento morria. O papel de mãe morre para “ressurgir”, um dia, na filha. O crescer, a todo momento, limitado por ordens, pode ser doloroso para mãe, que perde a utilidade social, quanto para filha, obrigada a aprender a lidar com sentimentos escusos: amor, ódio, medo, angústia, aflição e solidão. Ela seria feliz? Sofreria demais?

Em outra direção, “Da janela do meu quarto” traz a simplicidade das imagens de duas crianças brincando na lama e debaixo da chuva. Despretensiosos encenam a dança do poder: o garoto, por ser maior e mais forte que a garota, impede, com a imposição das mãos, a aproximação corporal. Há uma situação de dominação, na qual o garoto subjuga a fragilidade da garota, demonstrando o poder através da força. Quando a garota, ainda que por alguns instantes, impede a movimentação do garoto este se sente ameaçado e busca voltar a antiga situação. Esse retorno não é mais possível: o controlado percebe que pode controlar.

O eixo de diálogo reside na relatividade das relações de dominação. Os dois buscam retratar as diferentes manifestações de poder e como a perda da identidade social é inerente ao ser humano. Não há o que possa impedir o desabrochar do indivíduo: há sempre o desejo de ver o que há do outro lado da porta, enfim, desvendar.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Enquanto isso, na sala de justiça

+ Criança de apenas 1 ano e 7 meses é violentada e morta.
+ Dois rapazes são mortos a facadas na Zona Leste de São Paulo
+ Garota é atingida por um tiro nas costas durante assalto a Agência do Banco Itaú, em São Paulo

Enquanto isso na sala de Justiça....


- Esse negócio aí de diminuir a maioridade penal vai dar samba?
- Não sei, não sei...Acho que vai contribuir para a formação de criminosos qualificados cada vez mais novos.
- Estão falando em mudanças na Constituição. Uma bobagem, não?
- Ah, isso aí não é problema nosso. Deixa com os deputados.
- É mesmo, prá que mudar? A gente ganha bem prá caramba e nunca fez nada, prá que mudar agora e arriscar errar.
- É, desencana e me passa esse uisquinho que está dos deuses. É doze anos?
- Dezoito.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Como não se comportar em uma entrevista - Parte 2

Trajada respeitosamente, diria meu avô, chego para mais uma entrevista. Sento-me e verifico se meu cofrinho está à mostra.
O examinador entra. Apresenta-se, como todo consultor que se preze, com simpatia exagerada. Um viadinho. Espera um pouquinho, não serei eufemática*. Uma bichona, gorda e mal vestida. E precisava de um tonalizante nos cabelos.
A entrevista segue bem, até que:
- O que você faz quando está nervosa?
- Espero.
- Espera o quê exatamente, alguém para que você desconte seu nervosísmo?
"Filho de uma prostituta, tá me encurralando", pensava enquanto sorria nervosamente para ele.
- Não! - respirei - espero o nervosismo, a raiva passar (e o ódio que eu estava sentindo dele naquele momento também).
- Tudo bem, tudo bem, o que eu quero saber é enquanto você espera, o que faz?
Àquela hora queria levantar, cuspir bem cuspido na cara dele e dizer: "olha aí sua bichona, é isso o que eu faço enquanto espero a raiva passar!". Desisti. Me enchi dele e daquelas perguntinhas típicas prá pegar tonto.
- Como minhas unhas - disse, sem piscar e exibindo, solerte, as minhas mãos e as unhas, uma a uma, roídas - é auto-mutilação; faz bem, fucniona como uma auto-punição por ter ficado com raiva, nervosa, enfim, perdido o controle.
Arregalou os olhos e escreveu alguma coisa na folha que estava bem na frente dele. Com certeza, algo do tipo: essa é louca, ou interditem essa candidata...
Acenou positivamente a cabeça e disse que a entrevista estava terminada.

Dois dias depois meu celular tocou e vi, pela bina, que era o telefone do tal consultor. Nem atendi. Óbvio que não fui contratada. Bláh!

*eufemático = termo cunhado em plena redação do Esquinas de S.P., que designa um sujeito muito cheio de dedos, ou seja, que usa muitos eufemismos, misturado com o cara fleumático.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Anedota tirada de uma notícia de jornal

Saíra apressada aquela manhã. Nem tivera tempo de pentear as longas e negras madeixas adequadamente. O pente era apenas para a franja; cinco escovadas do lado esquerdo, cinco do direito e duas atrás: era seu rito de passagem da casa para a rua. Não era um cabelo exatamente lindo. Mas tinha volume e brilho naturais.
Correndo as escadarias do pequeno prédio no Botafogo, onde mora com a avó, ganhou as ruas do Rio naquela manhã e logo fez o sinal para que o ônibus que a conduziria até o Glória parasse.
Entrou no veículo, passou pela catraca e acomodou-se na segunda dupla de bancos do lado direito.
Abriu o livreto de palavras-cruzadas que gostava de ter como passatempo durante a viagem e, distraída, começou a completar as lacunas. Houve um movimentação suspeita no ônibus. Ela mal percebeu. Aproximava o livreto dos seus olhos vivos no afã de descobrir uma palavra incógnita.
Dois sujeitos ocuparam os assentos vagos, bem atrás dela. Um, ficou em pé, parado, bem ao lado.
Com destreza, um deles pegou uma tesoura e começou a executar o serviço. Dividida entre o passatempo e o incômodo que àquela hora sentia no couro cabeludo, pensou que alguém estava puxando seus fios.
Ao que fez menção de virar-se para tirar satisfações e pedir que parassem de lhe puxar os cabelos, o sujeito que estava em pé, justamente dando cobertura, puxou do cós de suas calças um revólver previamente engatilhado.
- Shiiiiu... É um assalto. Cala a boca e fica tudo na boa...
Sem entender, não demonstrou resistência e até ofereceu a bolsa, onde estava sua carteira com alguns poucos trocados. Nesse entretempo, o mais magricela do trio terminara o trabalho.
- Rapa daqui, vamo rapá daqui...
Deram sinal para que o ônibus parasse e com o tufo de cabelos nas mãos o trio saiu comemorando. O assalto fora bem sucedido.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Desimplicância

- Você também pediu café?
- Pedi. Dscafeinado.
- Que graça tem? O café descafeinado é a negação do café, portanto não é café.
- Bah, não quero discutir com você, você é muito implicante. Vamos voltar a falar de trabalho...
- Pó pará aí! Eu, implicante? Baseado em que você diz isso?
- Em tudo oras bolas. Não sei se sou eu ou o resto do mundo, mas você sempre tem um comentário a fazer, uma opinião, uma carta na manga, entende?
- Não sou implicante, apenas tenho bom domínio da retórica.
- Você é cheia de graça. Queria saber como faço para deixá-la sem!
- Sem graça?
- ahã
- Sem graça eu não sei, mas sem paciência eu já estou.
- Você não consegue ficar brava comigo.
Pausa. Ela baixa a cabeça. Depois olha prá ele.
- Não mesmo, desgraça. Mas o lance de implicante é que eu não entendi.
- Ah, sei lá. Tipo, qual o problema em tomar um café descafeinado?
- Simplesmente é a coisa mais sem emoção do mundo. É como tomar leite desnatado, chocolate sem cacau...são coisas que não podem estar dissociadas, que fazem parte uma da outra, que não existem plenamente quando separados...
Parei ao notar que ele me olhava. Não mais cheia de graça olhei. E senti um horror lancinante. Horror ao perceber que estava presa para sempre àquele olhar.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Como não se comportar numa entrevista - parte 1

Final de ano. Para quem está com as mãos abanando é hora de virar franco atirador. Esse é meu caso. Me inscrevi em 238697 processos seletivos. Quando ligam em casa para agendar entrevista essas bobagens todas tenho que puxar na memória "ah, esse é o 3457° que eu me inscrevi". As vezes, o descarte pode acontecer na hora do agendamento, pois pode ter sido resultado de um momento desesperador e descontrolado. De sua parte, é claro.

O outro descarte é mais traumático. Mulheres de Recursos Humanos deveriam ser interditadas. Nada contra as mulheres, mas aos recursos que elas insistem em dizer que são humanos.

Guardo com carinhoso pavor algumas histórias. Reproduzirei fielmente os diálogos e farei comentários entre parênteses.

"- Vocês podem sentar-se. A entrevista será aqui.
- Aqui? (aí está o primeiro erro: como fazer uma entrevista em dupla, ou seja, eu e minha concorrente na frente da mulher do RH)
- Sim. (elas quase sempre são monossilábicas)
- Quem fala primeiro?
- Eu gostaria, pode ser? - pergunto"

Ambas concordam, a RH e minha concorrente. Aí começo a me apresentar, toda aquela cantilena, que não reproduzirei aqui.

"- E por que escolheu a nossa empresa? (putaqueopariu, que pergunta inútil! o que ela quer saber? se a gente acha a empresa bacana? é obvio que sim, senão não estaria perdendo o Vale a pena ver de novo prá ficar olhando prá cara de insatisfeita dela - isso é outro capítulo que será abordado mais prá frente: moças de RH tem cara de insatisfeitas, prá ser educada, é pré requisito para ser uma RH)"
Sem saída, me vejo obrigada a fazer algo que me enoja: pagar pau para a empresa, dizer que gosto de desafios e que acredito que o emprego vai me proporcionar isso. Ou seja, nesse ponto você finge que fala a verdade e a RH finge que acredita. Uma hipocrisia nojenta.

"- E você mora sozinha?
- Com uma garota, mas não é de programa - fazendo uma gracinha para quebrar aquele clima." (Sim, concordo que foi desnecessário, mas saiu e boa).
Minha concorrente riu, timidamente, mas riu. A RH se manteve gélida e inexpressiva (ah, essa é outra característica para ser uma RH bem sucedida). Não podia confessar que tinha achado graça, mas notei um ventinho no lado esquerdo do lábio superior, denunciando que continha o riso.
Ela me faz mais algumas perguntas inócuas e vira-se para a outra garota, para começar a segunda entrevista. O mesmo se repete. Eu fico olhando prá garota, enquanto ela responde as perguntas, e fico me perguntando que merda me passou pela cabeça para me sujeitar àquilo tudo. O que a pindaíba crônica não faz, não?
"- Uma merda... - opa, fui traída pelo inconsciente
- Desculpe? - me interpela
- Desculpe eu, tive um ato falho - aproveitei para demosntrar meu insignificante, porém válido, conhecimento em psicologia
- Isso não é ato falho, isso é falta de educação
Fiquei tão p da vida. Foi um tapa no estômago, porque soco já seria exagero. Me enchi de toda aquela encenação.
- É sua cara - tomei coragem
Minha concorrente arregalou os olhos. A RH, não preciso repetir, aumentou o tom de voz, mas os músculos da face não se movimentaram um milímetro. Tenho razões prá achar que usava botox.
- Não estou entendendo...o que tem minha cara?
- Uma merda, entendeu? Poderia ter uma merda falando com a gente no lugar da sua cara.
- O quê? - indignada
A concorrente ficou vermelha e com as mãos na boca conteve uma risada prestes a explodir.
Continuei:
- Você não fala se tá gostando do que a gente fala ou não, não se manifesta, não interage, nem se permite rir quando acha graça de alguma coisa...é séria, inerte, como uma merda.
Levantei e saí. Acho que ela iria me dizer impropérios, mas não deu tempo.
Perdi a vaga, mas saí de lá tão leve, tão bem, que acredito ter valido a pena. Foi o equivalente a uma sessão de terapia.

Ainda fui cumprimentada pela concorrente. Vê se não tenho razão...

Homenagem as queridas amigas psicólogas (e psicóticas!). Amo vocês! - Má, Lia, Lê e Mari. Sou psico de coração, sabem disso.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Dia de amanhã

- Lembra que dia vai ser amanhã?
- Dia 22...
- Não.
- Quarta-feira?
- tsc, tsc...
- hum...aniversário da sua mãe?
- Não, não...
- Já sei, já sei...vai sair sua promoção no trabalho..
- Não!
- Desisto.
Desanimado:
- Nosso aniversário de namoro.
Com muita vergonha:
- Desculpe. Essas coisas não são tão importantes, o mais importante é que estamos juntos.
- É, talvez você tenha razão.
Não conseguiu esconder a decepção. Toda mulher lembraria uma data como essas. Ela não. Por isso dá certo. Eles formam o contraponto. E se equilibram.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

As Leis de Newton

- O peso de um corpo, também chamado de força-peso, representado por P, é calculado multiplicando a massa corpórea, que o senso comum chama de peso, pela velocidade da gravidade, representada por g.
Virou de costas para a sala e esquematizou por escrito na lousa tudo o que tinha acabado de explicar.
Continuou a aula.
- Se alguém pular do sétimo andar da janela de um prédio, como calcularemos a velocidade da queda, excluindo o atrito do corpo com o ar?
Silêncio. Sala cheia. Ninguém se manifestou. Física sempre foi matéria complexa. Somente alguns eram capazes de compreender todas as suas leis e aplicações.
- Ei, pessoal, vamos lá! Vocês tem que revisar a matéria na casa de vocês, porque senão eu vou ficar aqui falando sozinha...
Apesar da dificuldade que a disciplina representava para os alunos, a professora era muito bem quista por todos. Uma das alunas, sentada na primeira carteira da fileira do meio, arriscou alguns palpites:
- Acho que nesse caso, além da força peso, teremos que considerar a altura de onde a pessoa saltou...
- Isso mesmo. Está indo pelo caminho certo. Como disse nossa colega, nesse caso a velocidade é também influenciada pela altura de onde a pessoa cai e evidentemente pela sua força-peso - volta-se para a lousa e passa a transliterar o que raciocina - Dessa forma usamos o intervalo de espaço, representado por delta S, sobre o intervalo de tempo em que o corpo demora para cair, representado por delta t. Ei pessoal, já dá prá ter até uma idéia se a pessoa morreu ou não...
Os alunos riram. A professora riu amarelo. O sinal tocou indicando que aula terminara.
- Até a semana que vem para quem não vier no plantão de dúvidas que darei amanhã a tarde.
Mexeu os dedos da mão direita em sinal de despedida e desapareceu pela porta da sala.

Foi até a sua casa. Almoçou, descansou e viu um pouco de TV. Por volta das seis da tarde, estava limpando a janela do seu quarto e olhou para baixo. Morava no sétimo andar de um prédio no centro da cidade. Sua janela dava para o playground. Muitas crianças brincavam àquela hora, depois de terem ficado na escolinha o dia todo. Olhos pensativos. Lousa. Cálculos. Janela. Chão. Ficou calculando a velocidade com que cairia de pulasse. Lousa. Alunos. Aula. Vida. Colocou o pé direito para fora da janela e obcecada por materializar uma teoria de anos, pulou.

Caiu sobre a gangorra e, por sorte, não atingiu nenhuma das crianças, que olharam assustadas para o que tinha acabado de acontecer. Algumas babás, em vão, tentaram tapar os olhos dos pequenos. Caiu em pé. Seu corpo foi dividido em dois pelas ferragens.

Newton a tinha desatinado.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

bang bang

Hoje percebi o quão importante foi o plebiscito sobre o desarmamento. O resultado não foi o esperado - compreensível, já que estamos falando de um país que por um triz não reelegeu Lula, aquele que não quer ver -, mas é o que foi decidido e ponto final. A primeira vista, nenhuma mudança factual para o cidadão comum. Mas, tenho dito: graças a Deus não tenho uma arma.
No metrô, voltando da Lapa, tive impetos de metralhar umas várias pessoas. Pelo simples fato de estourar os seus miolos. E só. Não pelo desejo de matar, mas de aliviar. Estava segurando na barra do metrô e fiquei olhando toda aquela gente se amontoando num espaço mínimo. Tive pena e depois nojo e vontade de metralhar todos que estavam a minha volta. Simplesmente mirar na testa e pou...acertei. Que maravilhosa sensação.
Você é feio, você masca o chiclé de um jeito que eu não gosto, você come de boca aberta...bla´blá bla, motivos não faltarão. Bang Bang você morreu!

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Esperar prá ver

"Presidente que foge de debate mostra que prefere ficar escondido atrás de publicidade paga com dinheiro do povo em vez de ir para o ringue lutar em igualdade de condições ", frase dita em 1998 pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que agora não deseja participar dos debates .

Irônico não? Olha só como o mundo é uma bola mesmo...E olha como a palavra proferida, quando testemunha, tem o efeito de uma bomba.

A oposição vira situação. Essa frase é obvia se imaginarmos que todo partido empossado no governo, desconsiderando ideologias e discursos, torna-se automaticamente situação. Contudo, não é fato consumado um PT cheio de glórias e retóricas embebidas de conceitos como democracia, liberdade e ética, entrar de cabeça no saco de farinha que sempre criticou. A decisão só acontece no segundo turno, daqui exatos quatro domingos. Graças a Deus: o eleitor vai ter tempo de respirar e botar a massa encefálica para funcionar. Durante a campanha do 1° turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez o que sempre criticou: fugiu do debate, articulação interessante e bastante proveitosa para o eleitor, que pode saber mais das propostas de governo de cada um dos presidenciáveis. Segundo informações oficiais, a ausência nos debates foi uma questão estratégica. Qual será a conduta do barbudo durante a campanha do 2° turno?

É esperar pra ver.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Lula, Fidel e outras cositas más

Com a proximidade das eleições e o aumento considerável do meu ódio certo candidato a presidência, coloco um texto que escrevi no dis 29 de agosto e que fora publicado no blog Pronto para Impressão

Com a saúde debilitada de Fidel Castro é tempo de volvermos nossos olhares para Cuba e fazermos algumas reflexões. A burocratização das estruturas de sistemas de governo socialistas, como é o caso do referido país, servem justamente para conter a prática do patrimonialismo. Ou ainda, conter os ímpetos de manifestação dos próprios desejos quando se dirige um país. O que temos em Cuba é um socialismo e uma ditadura. O diatador Fidel, aprumado em uma estrutura socialista. Um líder burocrático, com claras características patrimoniais. Um líder de um país com uma educação exemplar e uma reforma agrária bem sucedida (que diga-se de passagem é uma articulação extremamente capitalista) e a pobreza igualitariamente dividida. A liberdade de expressão é inexistente e não podemos falar em imprensa articulada em Cuba. Mas como ficou provado no plebiscito feito no início deste século, o governo Castrista tem um elemento que o mantém vivo e forte. Um elemento que o filósofo Gramsci, no início do século passado, batizaria como legitimidade. É o que mantém o Estado em pé. Afinal, o que Cuba é? Vivem regidos pela burocracia ou pelo patrimonialismo?

Legitimidade é a palavra-chave para entendermos o cenário político brasileiro. Lula é um ridículo. Mas é um líder amparado pelo consenso de quem o elege. E "quem" aqui é no sentido de grupo social. Há pouco mais de um mês das Eleições 2006, Lula passeia com seu ar pavonado de vencedor. Um militante que almejou o socialismo, chegou ao governo quando abandonou o sonho e hoje é um líder, em absoluto, patrimonial. Um monarca absolutista. Uma cria de ditador. Pode indagá-lo caro leitor, se seu desejo mais íntimo não seria o poder vitalício? Ele responderá que sim, pode ter certeza. O Congresso nunca foi tão descaradamente patrimonial quanto no Governo do petista. Nunca houve tanta camaradagem nas escolhas de Lula para ocupar os ministérios. E outros casos, que nem sonhamos saber. E nem nunca saberemos.

Dá até prá compreender. Gramsci é o teórico que norteou a formação ideológica do Partido dos Trabalhadores, nos idos dos anos 80. O que esqueceram de falar para o presidente é que a legitimidade a qual Gramsci se referia era num contexto socialista, não em um contexto no qual esta dependeria de conchavos e de ideologias na lata do lixo.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Um dia dá certo

Embora o sol brilhasse esplêndido lá fora, dentro de mim estava escuro e sombrio. É muito complicado lidar com um inimigo invisível. Você olha para o lado e não há nada. Você pára prá pensar e nada povoa a mente, porque simplesmente o problema não está fora, mas dentro.
Tive pensamentos ruins e me culpei por isso. Não pura e simplesmente por tê-los sentido, mas por tê-los aceito como saída.
As razões para deixar de viver, via de regra, são muito egoístas. Me senti fraca por pensar na morte. Uma filha da puta, na verdade. Como posso pensar em deixar de viver momentos tão bons como os que vivo?

Tenho medo do que penso, às vezes. A nossa mente é uma máquina e pode acontecer de ter uma reação na esperada, que não estava explícita no manual de instruções.

Hoje peguei a caneta bic com a qual estava fazendo palavras-cruzadas e enfiei na garganta. Não sei que merda me passou pela cabeça, mas no minuto seguinte me senti tão tola que tive medo de olhar para o lado e encontrar alguém me fitando com ar de reprovação total.

Sangrou muito e está doendo ainda. O médico disse que por sorte não acertei a jugular. Poderia ter morrido. Ele disse que com essas historinhas um dia eu acabo acertando e não vai ter volta. Pensei que é melhor não pagar prá ver.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

O amor como máscara

Amores impossíveis com diferença de dois séculos na concepção de um e de outro. Em ambas histórias, os protagonistas sacrificam seus privilégios e regalias em nome de um amor, que ao menos se prova, para vida toda. A filmagem do longa "Tristão e Isolda" (2006), por Kevin Reynolds, baseado em uma história que data do século XII, assinada pelo francês Béroul - não há registros autorais da lenda, o que se sabe é que veio a público na Idade Média - faz com que a memória traga a tona a história Shakespeareana dos amantes eternos "Romeu e Julieta".
Além de arrancarem suspiros apaixonados até mesmo dos mais insensíveis espectadores, os filmes guardam outra característica que os aproxima. O amor cortês - em que há uma testemunha ocular, que em algum momento da trama torna-se pivô de uma decisão - é usado como pretexto para falar de um nefasto hábito da condição do ser humano: a mentira.
Julieta crava um punhal no peito - na versão original; na contemporânea, se mata com um tiro na cabeça - porque não suporta a idéia de que seu plano secreto não chegou a conhecimento de Romeu. Isolda é obrigada a casar-se com o Senhor de seu grande amor, por ocultar de Tristão sua verdadeira identidade.
Há os que comumente dizem que foi o destino, obra do acaso ou algo que o valha. Não acredito. Temos inteira responsabilidade pelos nossos atos. Em ambos os casos, as protagonistas foram induzidas a mentir: Isolda foi persuadida pela ama a mentir o nome, por essa achar que seria perigoso revelar sua verdadeira identidade; Julieta foi convencida pelo padre, que o simulacro de sua morte, sem que ninguém exceto ele e Romeu soubessem, seria a única saída para um final feliz.
Pode parecer bobeira, mas imaginem como teria sido conduzida a história se os personagens citados acima não existissem e não tivessem realizado influência efetiva no direito ao livre arbítrio das protagonistas?
A idéia não é levantar bandeira, tampouco encontrar culpados. O fato é que o amor, colocado em primeiro plano nas histórias, é, em essência, mote para discutir a questão da mentira, do engano, nos dois casos, decorrentes de opções conscientes dos personagens.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Uma festa qualquer

Uma música embalava a alma. Uma magia no ar. Algo diferente aconteceria na vida daquele reles mortal. Arrumava-se de um jeito diferente para ir àquela festa. Não sabia o por quê, mas tinha uma certeza: aquela não seria mais uma das muitas festas que iria, despretensioso. O destino reservava para aquela noite, cadeira cativa na platéia da felicidade. Encontraria um certo alguém? O grande amor da sua vida? Como sabê-lo?
Do outro lado da cidade, se arrumava para a mesma festa, aquela que mudaria os rumos da sua existência. A única capaz de controverter a técnica milenar da quiromancia que acusava nas mãos dele, infelicidade eterna no amor. A linha do amor das mãos dela era curta, igualmente confusa, apagada como a dele. Era incrível, mas ela também estava embalada por uma sensação ímpar de prazer iminente. Sentia no ar, um toque especial de desejo a ser concretizado, tão logo.
Chegaram à festa. Tinha gente para todos os lados. Muita. Muita gente! Para dar uma volta perimetral no salão, eram necessários uns 65 minutos. Ou mais. Quem sabe? Dependeria da velocidade média dos passos de cada um...
Ele pensava como seria ela. Ela procurava nos rostos do salão, uma idealizada forma de amor. Predestinados a viver um grande amor! Quem saberia? Exaustivamente, procuravam, não se sabia ao certo a que, ou melhor, a quem, mas procuravam o que nem tinham perdido ainda. Claro, já que nem tinham achado!
Jamais desistiriam. Persistentes, encararam muitos rostos, fitaram muitos corpos, fotografaram muitas retinas, tocaram em muitas mãos. Muita gente na festa. Não se encontraram. Era melhor começar a dar crédito a quiromancia.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Perfil - Na Berlinda

Após grande parte dos jogos do Brasil, durante a Copa do Mundo, quem vai entrar ao vivo com o programa Gazeta Esportiva, usa saia, batom vermelho e cabelos louros na altura dos ombros. Michele Gianella, aos 26 anos, é apresentadora do programa de esportes há cinco. Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero, começou como repórter no programa de variedades Mulheres, da Rede Gazeta, fez mais de 80 reportagens, quando enfim foi convidada para integrar o núcleo de esportes da emissora. “Fui convidada, porque sou uma cria da casa”. Participa do programa Mesa Redonda, recebendo perguntas por e-mail, ao lado de Flávio Prado, Chico Lang, Celso Cardoso e Osmar Garrafa, e tem um quadro no programa Disparada do Esporte, transmitido pela rádio Gazeta AM, 890 mhz, no qual fala sobre os bastidores do mundo esportivo, às terças e sextas-feiras.

“No começo foi um pouco difícil, porque são muitos jogadores, muitos campeonatos”. Além disso, Michele vinha de um programa feminino de variedades. “Muita gente virava pra mim e falava: ‘você é modelo?’ e eu fazia questão de dizer ‘não, sou jornalista’. A beleza ajuda por um lado, mas por outro a cobrança em cima do seu trabalho é maior, você tem que provar todo dia que você é capaz, que é responsável e que sabe o que está fazendo”. Para driblar as dificuldades, criou uma estratégia que considera infalível. “Eu tenho um caderno de estudos, onde eu anoto os campeonatos, os nomes dos jogadores e algumas informações de cada um deles. Hoje já tô tirando de letra”, comemora.

Única mulher da equipe, Michele considera tanto o ambiente de trabalho como a relação com os colegas ideal. “Não existe isso de preconceito. Eu participo de todas as reuniões, eles me ouvem e todo mundo discute junto. É bem aquela coisa de equipe e acho que por isso os programas têm dado um resultado tão bacana em termos de ibope”, ressalta.
Michele diz que a convicção de ter ultrapassado todas as barreiras veio com o convite para integrar o Mesa Redonda. “É uma jaula de leões. Se você for um cordeirinho é devorado, seja pelos convidados, seja pelos comentaristas. Precisa ter o conhecimento, a postura, porque é um programa ao vivo, onde tudo pode acontecer”, explica a jovem jornalista. Após ter sido enfrentada pelo goleiro Rogério Ceni – quando chamou o São Paulo de amarelão no ar – e peitado o técnico Leão – que a acusou de usar a voz de um internauta para fazer uma pergunta delicada –, dá a dica de sobrevivência. “Tem que ser firme, porque senão eles acham que você só vai ficar adulando e não é isso”.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

A sorte está lançada

- Você vai morrer
- Vou nada! Quem vai é você...
- O menos ágil vai morrer
- Ou o menos rápido
- Ou aquele que tiver mais sorte
Dois amigos apostaram o resultado da final do Campeonato Brasileiro daquele ano. Deu empate. Decidiram levar a história as últimas conseqüências: resolver na roleta russa.
Quem estava no centro das atenções era uma pistola cromada calibre 38. A coronha era de madeira. Cerejeira.
Um escolheu pinga prá tomar coragem. O outro optou por tequila, em respeito as raizes mexicanas do pai.
Na cartucheira, seis espaços que logo seriam ocupados por duas balas devidamente selecionadas.
Gira a roleta. A sorte está lançada. Já há um escolhido para começar o duelo.
Segura a arma com força, pressionando-a sobre a mesa. Puxa-a e posiciona-a próximo ao ouvido esquerdo.
- O cano está frio
- É claro, isso é ferro, seu burro
As mãos, suando em bica gelada, se espremem na arma, com o objetivo de não deixá-la escorregar. Não há muito tempo para pensar, quando o indicador desliza sobre o gatilho, levando-o para trás.
Apenas um clique, indica que o gatilho foi acionado, porém não havia bala. Livre, comemora a passagem. Um suspiro longo e aliviado.
Coloca a arma sobre a mesa e gira. O cano fica entre os dois. Haverá um tira-teima. É a vez do outro. O rito de nervosismo que antecede a proximidade óbvia com a iminência da morte se repete. As mãos roxas seguram a arma, com o suor gelado do oponente e fica difícil saber o que é mais frio naquele momento: o medo ou a matéria.
- Vamos acabar logo com isso.
Num repente, segura a arma sem hesitar e aperta o gatilho, exigindo um certo esforço dos seus dedos que àquele momento já tinham as articulações comprometidas. Novamente um barulho de atrito do ferro indica que a roleta teria muito para rodar ainda.
Nova rodada. O primeiro cumpre novamente o ritual. Dessa aponta para o ouvido direito. Um estrondo. Silêncio. Mãos na boca. Sangue na parede. "Eu disse a ele que o lado esquerdo dava sorte".
Atordoado pela cena e nauseado pelo cheiro de pólvora, pensou que alí ainda restava uma bala para ele. No empate não há vencedores e perdedores. É uma situação onde todos ficam empareados.
Não pensou muito. Girou o pente do revolver e colocou o cano no céu da boca. Estrondo. Silêncio eterno.
O rádio, baixinho, sintonizado na 97.6 mhz AM informa o cancelamento da partida final do Campeonato Brasileiro por suspeita de corrupção da arbitragem. O locutor conta aos ouvintes que ainda não está decidido o dia para um novo jogo.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Ela é uma super mulher

Clima de Copa do Mundo, nos próximos dias vou publicar perfis que de mulheres notáveis no cenário esportivo da imprensa brasileira. O primeiro é da Soninha Francine. Comentem...

Todos os dias, ela chega aos estúdios da ESPN numa Vespa, vestindo calça jeans, uma mochila amarela nas costas e tênis necessariamente confortáveis nos pés. Maquiagem tem que ser leve e só para gravar. “Maquiagem carregada, me deixa super incomodada. Fazer um programa de esporte com um bocão não tem o menor cabimento”. Aos 38 anos, Soninha divide o pouco tempo que tem entre a Câmara dos Vereadores, as três filhas – Rachel, 22, e Julia, 9, que moram com ela, e Sarah, 18, que mora com o pai – e o programa esportivo Bate-Bola, exibido pelo canal pago ESPN – Brasil e o caderno de esportes do jornal Folha de S. Paulo.
Formada em Cinema pela USP, Soninha começou como VJ da MTV, emissora na qual passou dez anos de sua vida. De lá foi para a Cultura apresentar um programa que reuniria música, teatro, futebol, política e meio ambiente. “Era o que eu queria: um programa diário, ao vivo, com todas essas coisas, pra mim uma combinação deliciosa”. Na época foi envolvida em uma polêmica com maconha e demitida da TV Cultura, mas já estava na ESPN que teve uma posição diferente da qual ela se recorda muito bem. “O Trajano me chamou e falou ‘olha a gente recebeu uma pilha de e-mails nos elogiando por não ter te mandado embora e outra dizendo que iam cancelar a assinatura, porque esporte é saúde e não poderia ter uma drogada na programação’. Aí ele apontou para a segunda pilha e disse ‘esses aqui, se quiserem, vão ter que cancelar a assinatura’”.
Apesar de o ambiente do futebol ter predominância masculina, Soninha acredita que a questão do preconceito está quase superada. “Eu não vou dizer que eu nunca tive problemas com colegas no ar. Nunca teve nada muito descarado, mas já rolou de estar numa mesa e tomar uma cortada. Se um colega dissesse a mesma coisa, talvez não causasse uma reação tão ríspida”.
Com mais de um ano de mandato como vereadora pelo PT-SP, Soninha afirma que não há comparação entre os problemas que enfrentou no futebol e na política. “A política é mais difícil que qualquer coisa. Estou enfrentando problemas, mas não é por ser mulher. É mais uma questão de inflexibilidade. Depende do que você aceita abrir mão pra fazer com que o negócio aconteça”.
Ansiosa com a expectativa de pela primeira vez cobrir uma Copa do Mundo, aponta que Parreira acertou ao convocar Rogério Ceni e deve repensar a idéia de fazer os treinos abertos. “Sempre treinar aos olhos do público é muito complicado. O treino é uma hora onde você deve ter sossego”. Soninha embarca na quinta-feira para a Alemanha e dá a dica para o sucesso da seleção. “Saber a hora de desobedecer. O técnico tem a obrigação de mandar e o jogador de obedecer, mas tem que ter a presença de espírito para o imprevisto. É isso que faz a diferença na hora”.