quarta-feira, 9 de agosto de 2006

O amor como máscara

Amores impossíveis com diferença de dois séculos na concepção de um e de outro. Em ambas histórias, os protagonistas sacrificam seus privilégios e regalias em nome de um amor, que ao menos se prova, para vida toda. A filmagem do longa "Tristão e Isolda" (2006), por Kevin Reynolds, baseado em uma história que data do século XII, assinada pelo francês Béroul - não há registros autorais da lenda, o que se sabe é que veio a público na Idade Média - faz com que a memória traga a tona a história Shakespeareana dos amantes eternos "Romeu e Julieta".
Além de arrancarem suspiros apaixonados até mesmo dos mais insensíveis espectadores, os filmes guardam outra característica que os aproxima. O amor cortês - em que há uma testemunha ocular, que em algum momento da trama torna-se pivô de uma decisão - é usado como pretexto para falar de um nefasto hábito da condição do ser humano: a mentira.
Julieta crava um punhal no peito - na versão original; na contemporânea, se mata com um tiro na cabeça - porque não suporta a idéia de que seu plano secreto não chegou a conhecimento de Romeu. Isolda é obrigada a casar-se com o Senhor de seu grande amor, por ocultar de Tristão sua verdadeira identidade.
Há os que comumente dizem que foi o destino, obra do acaso ou algo que o valha. Não acredito. Temos inteira responsabilidade pelos nossos atos. Em ambos os casos, as protagonistas foram induzidas a mentir: Isolda foi persuadida pela ama a mentir o nome, por essa achar que seria perigoso revelar sua verdadeira identidade; Julieta foi convencida pelo padre, que o simulacro de sua morte, sem que ninguém exceto ele e Romeu soubessem, seria a única saída para um final feliz.
Pode parecer bobeira, mas imaginem como teria sido conduzida a história se os personagens citados acima não existissem e não tivessem realizado influência efetiva no direito ao livre arbítrio das protagonistas?
A idéia não é levantar bandeira, tampouco encontrar culpados. O fato é que o amor, colocado em primeiro plano nas histórias, é, em essência, mote para discutir a questão da mentira, do engano, nos dois casos, decorrentes de opções conscientes dos personagens.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Uma festa qualquer

Uma música embalava a alma. Uma magia no ar. Algo diferente aconteceria na vida daquele reles mortal. Arrumava-se de um jeito diferente para ir àquela festa. Não sabia o por quê, mas tinha uma certeza: aquela não seria mais uma das muitas festas que iria, despretensioso. O destino reservava para aquela noite, cadeira cativa na platéia da felicidade. Encontraria um certo alguém? O grande amor da sua vida? Como sabê-lo?
Do outro lado da cidade, se arrumava para a mesma festa, aquela que mudaria os rumos da sua existência. A única capaz de controverter a técnica milenar da quiromancia que acusava nas mãos dele, infelicidade eterna no amor. A linha do amor das mãos dela era curta, igualmente confusa, apagada como a dele. Era incrível, mas ela também estava embalada por uma sensação ímpar de prazer iminente. Sentia no ar, um toque especial de desejo a ser concretizado, tão logo.
Chegaram à festa. Tinha gente para todos os lados. Muita. Muita gente! Para dar uma volta perimetral no salão, eram necessários uns 65 minutos. Ou mais. Quem sabe? Dependeria da velocidade média dos passos de cada um...
Ele pensava como seria ela. Ela procurava nos rostos do salão, uma idealizada forma de amor. Predestinados a viver um grande amor! Quem saberia? Exaustivamente, procuravam, não se sabia ao certo a que, ou melhor, a quem, mas procuravam o que nem tinham perdido ainda. Claro, já que nem tinham achado!
Jamais desistiriam. Persistentes, encararam muitos rostos, fitaram muitos corpos, fotografaram muitas retinas, tocaram em muitas mãos. Muita gente na festa. Não se encontraram. Era melhor começar a dar crédito a quiromancia.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Perfil - Na Berlinda

Após grande parte dos jogos do Brasil, durante a Copa do Mundo, quem vai entrar ao vivo com o programa Gazeta Esportiva, usa saia, batom vermelho e cabelos louros na altura dos ombros. Michele Gianella, aos 26 anos, é apresentadora do programa de esportes há cinco. Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero, começou como repórter no programa de variedades Mulheres, da Rede Gazeta, fez mais de 80 reportagens, quando enfim foi convidada para integrar o núcleo de esportes da emissora. “Fui convidada, porque sou uma cria da casa”. Participa do programa Mesa Redonda, recebendo perguntas por e-mail, ao lado de Flávio Prado, Chico Lang, Celso Cardoso e Osmar Garrafa, e tem um quadro no programa Disparada do Esporte, transmitido pela rádio Gazeta AM, 890 mhz, no qual fala sobre os bastidores do mundo esportivo, às terças e sextas-feiras.

“No começo foi um pouco difícil, porque são muitos jogadores, muitos campeonatos”. Além disso, Michele vinha de um programa feminino de variedades. “Muita gente virava pra mim e falava: ‘você é modelo?’ e eu fazia questão de dizer ‘não, sou jornalista’. A beleza ajuda por um lado, mas por outro a cobrança em cima do seu trabalho é maior, você tem que provar todo dia que você é capaz, que é responsável e que sabe o que está fazendo”. Para driblar as dificuldades, criou uma estratégia que considera infalível. “Eu tenho um caderno de estudos, onde eu anoto os campeonatos, os nomes dos jogadores e algumas informações de cada um deles. Hoje já tô tirando de letra”, comemora.

Única mulher da equipe, Michele considera tanto o ambiente de trabalho como a relação com os colegas ideal. “Não existe isso de preconceito. Eu participo de todas as reuniões, eles me ouvem e todo mundo discute junto. É bem aquela coisa de equipe e acho que por isso os programas têm dado um resultado tão bacana em termos de ibope”, ressalta.
Michele diz que a convicção de ter ultrapassado todas as barreiras veio com o convite para integrar o Mesa Redonda. “É uma jaula de leões. Se você for um cordeirinho é devorado, seja pelos convidados, seja pelos comentaristas. Precisa ter o conhecimento, a postura, porque é um programa ao vivo, onde tudo pode acontecer”, explica a jovem jornalista. Após ter sido enfrentada pelo goleiro Rogério Ceni – quando chamou o São Paulo de amarelão no ar – e peitado o técnico Leão – que a acusou de usar a voz de um internauta para fazer uma pergunta delicada –, dá a dica de sobrevivência. “Tem que ser firme, porque senão eles acham que você só vai ficar adulando e não é isso”.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

A sorte está lançada

- Você vai morrer
- Vou nada! Quem vai é você...
- O menos ágil vai morrer
- Ou o menos rápido
- Ou aquele que tiver mais sorte
Dois amigos apostaram o resultado da final do Campeonato Brasileiro daquele ano. Deu empate. Decidiram levar a história as últimas conseqüências: resolver na roleta russa.
Quem estava no centro das atenções era uma pistola cromada calibre 38. A coronha era de madeira. Cerejeira.
Um escolheu pinga prá tomar coragem. O outro optou por tequila, em respeito as raizes mexicanas do pai.
Na cartucheira, seis espaços que logo seriam ocupados por duas balas devidamente selecionadas.
Gira a roleta. A sorte está lançada. Já há um escolhido para começar o duelo.
Segura a arma com força, pressionando-a sobre a mesa. Puxa-a e posiciona-a próximo ao ouvido esquerdo.
- O cano está frio
- É claro, isso é ferro, seu burro
As mãos, suando em bica gelada, se espremem na arma, com o objetivo de não deixá-la escorregar. Não há muito tempo para pensar, quando o indicador desliza sobre o gatilho, levando-o para trás.
Apenas um clique, indica que o gatilho foi acionado, porém não havia bala. Livre, comemora a passagem. Um suspiro longo e aliviado.
Coloca a arma sobre a mesa e gira. O cano fica entre os dois. Haverá um tira-teima. É a vez do outro. O rito de nervosismo que antecede a proximidade óbvia com a iminência da morte se repete. As mãos roxas seguram a arma, com o suor gelado do oponente e fica difícil saber o que é mais frio naquele momento: o medo ou a matéria.
- Vamos acabar logo com isso.
Num repente, segura a arma sem hesitar e aperta o gatilho, exigindo um certo esforço dos seus dedos que àquele momento já tinham as articulações comprometidas. Novamente um barulho de atrito do ferro indica que a roleta teria muito para rodar ainda.
Nova rodada. O primeiro cumpre novamente o ritual. Dessa aponta para o ouvido direito. Um estrondo. Silêncio. Mãos na boca. Sangue na parede. "Eu disse a ele que o lado esquerdo dava sorte".
Atordoado pela cena e nauseado pelo cheiro de pólvora, pensou que alí ainda restava uma bala para ele. No empate não há vencedores e perdedores. É uma situação onde todos ficam empareados.
Não pensou muito. Girou o pente do revolver e colocou o cano no céu da boca. Estrondo. Silêncio eterno.
O rádio, baixinho, sintonizado na 97.6 mhz AM informa o cancelamento da partida final do Campeonato Brasileiro por suspeita de corrupção da arbitragem. O locutor conta aos ouvintes que ainda não está decidido o dia para um novo jogo.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Ela é uma super mulher

Clima de Copa do Mundo, nos próximos dias vou publicar perfis que de mulheres notáveis no cenário esportivo da imprensa brasileira. O primeiro é da Soninha Francine. Comentem...

Todos os dias, ela chega aos estúdios da ESPN numa Vespa, vestindo calça jeans, uma mochila amarela nas costas e tênis necessariamente confortáveis nos pés. Maquiagem tem que ser leve e só para gravar. “Maquiagem carregada, me deixa super incomodada. Fazer um programa de esporte com um bocão não tem o menor cabimento”. Aos 38 anos, Soninha divide o pouco tempo que tem entre a Câmara dos Vereadores, as três filhas – Rachel, 22, e Julia, 9, que moram com ela, e Sarah, 18, que mora com o pai – e o programa esportivo Bate-Bola, exibido pelo canal pago ESPN – Brasil e o caderno de esportes do jornal Folha de S. Paulo.
Formada em Cinema pela USP, Soninha começou como VJ da MTV, emissora na qual passou dez anos de sua vida. De lá foi para a Cultura apresentar um programa que reuniria música, teatro, futebol, política e meio ambiente. “Era o que eu queria: um programa diário, ao vivo, com todas essas coisas, pra mim uma combinação deliciosa”. Na época foi envolvida em uma polêmica com maconha e demitida da TV Cultura, mas já estava na ESPN que teve uma posição diferente da qual ela se recorda muito bem. “O Trajano me chamou e falou ‘olha a gente recebeu uma pilha de e-mails nos elogiando por não ter te mandado embora e outra dizendo que iam cancelar a assinatura, porque esporte é saúde e não poderia ter uma drogada na programação’. Aí ele apontou para a segunda pilha e disse ‘esses aqui, se quiserem, vão ter que cancelar a assinatura’”.
Apesar de o ambiente do futebol ter predominância masculina, Soninha acredita que a questão do preconceito está quase superada. “Eu não vou dizer que eu nunca tive problemas com colegas no ar. Nunca teve nada muito descarado, mas já rolou de estar numa mesa e tomar uma cortada. Se um colega dissesse a mesma coisa, talvez não causasse uma reação tão ríspida”.
Com mais de um ano de mandato como vereadora pelo PT-SP, Soninha afirma que não há comparação entre os problemas que enfrentou no futebol e na política. “A política é mais difícil que qualquer coisa. Estou enfrentando problemas, mas não é por ser mulher. É mais uma questão de inflexibilidade. Depende do que você aceita abrir mão pra fazer com que o negócio aconteça”.
Ansiosa com a expectativa de pela primeira vez cobrir uma Copa do Mundo, aponta que Parreira acertou ao convocar Rogério Ceni e deve repensar a idéia de fazer os treinos abertos. “Sempre treinar aos olhos do público é muito complicado. O treino é uma hora onde você deve ter sossego”. Soninha embarca na quinta-feira para a Alemanha e dá a dica para o sucesso da seleção. “Saber a hora de desobedecer. O técnico tem a obrigação de mandar e o jogador de obedecer, mas tem que ter a presença de espírito para o imprevisto. É isso que faz a diferença na hora”.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

O aniversário que não foi

Belinha ficou a semana inteira esperando a sexta-feira chegar. Era o dia de seu aniversário. Começaria a completar mais uma vez a mão. Ao mesmo tempo que era muito legal fazer aniversário, a idéia de que passaria a ter vinte e um anos a amendontrava um pouco. Os mais velhos diziam que depois dos vinte, o tempo passaria tão rápido que quando ela parasse para se dar conta, já estaria com os cabelos brancos e algumas rugas no rosto.
Não dormiu bem na véspera de seu aniversário. Confusa, não sabia dizer se era de ansiedade ou por conta da série de pesadelos que a atormentaram a noite toda. Sonhou que era como era: jovem, a pele bonita e sadia, e ao se olhar no espelho, viu no reflexo, uma velha caquética, com a pele cheia de marcas inexoravelmente deixadas pelo tempo que muito velozmente passou. Inconformada, ao se levantar da cama na manhã de sexta-feira, pensou que não queria mais crescer. A bem da verdade era que não queria mudar de idade. Imaginou que dali algumas horas deixariam até mesmo de chamá-la de Belinha. Ela seria Isabella, a anciã.
Lavou o rosto para espantar o sono e desceu as escadas do sobrado que morava desde a infância para o café-da-manhã. Sua mãe estava assistindo a um programa de receitas fáceis para o dia-a-dia da mulher moderna. Nem notou quando a filha chegou.
- Manhê! Uhu...eu estou aqui...
- Nossa filha, me desculpe, estava distraída.
Deu a volta na mesa, aproximou-se de Belinha e deu-lhe um beijo na testa. Não disse nada, apenas cumprimentou-a como de hábito. Belinha estranhou:
- Não está se esquecendo de nada?
A mãe ficou pensando, pensando:
- Não.
- Mãe, hoje é meu aniversário.
Num riso incontido:
- Não é não minha filha, você está se confundindo.
- Você acha que eu erraria o data do meu próprio nascimento?
- Ai ai, acho que anda trabalhando demais...Por que não pede uma folga ao seu chefe?
Belinha ficou sem-graça. Desenchavida, tomou o café com leite num gole só e saiu.
Na faculdade, ninguém se lembrou do seu aniversário, nem mesmo a melhor amiga. Todos diziam que ela havia enlouquecido e riam dela. Mas se perguntasse que dia era então seu aniversário, não recebia resposta alguma. Como poderia acontecer algo daquele tipo?
A esperança de provar sua sanidade era o pessoal do trabalho. Cruzando os dedos, entrou na sala, a espera de um abraço de parabéns. Nada aconteceu. Os colegas mais próximos deram um boa tarde comum e alguns até arriscaram um abraço, por estarem de bom humor. Ninguém se lembrara do seu aniversário.
Perturbada, começou a pensar de que forma provaria que não estava sendo vítima de um surto psicótico. Abriu a carteira e pegou o RG. Seria a prova concreta e cabal de que nascera naquele dia, há vinte e um anos, a partir daquele momento. Para sua surpresa e pavor, a data estava borrada. Não havia dia, nem mesmo, tampouco ano de registro do dia que veio ao mundo.
Voltou para a casa e pediu a mãe o registro de nascimento.
- Isabella, o seu registro ficou em chamas no incêndio da antiga casa. Você não se lembra, porque ainda era um bebê de alguns meses.
Nunca ouvira a mãe chamando-a pelo nome de batismo. Isso a perturbou um bocado. Pensava ser vítima de alguma teoria da conspiração. Estava tão agitada, que sua mãe percebeu:
- O que foi, filha?
- Mãe, se meu aniversário não é hoje, quando é?
- Já foi. Você escolheu isso.
Belinha lembrou da noite anterior, de tudo que havia sonhado, mas não entendeu. O primeiro passo para receber votos de um feliz aniversário é estar plenamente satisfeito com a idade. Todas as épocas da vida têm dores e delícias. Tem que saber dosar. Só compreenderia, com o passar dos anos, que a vida estava passando só ela não.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

O peso da vida

Na varanda da casa, numa quarta-feira qualquer.
- O cemitério tem uma coisa bonita, não sei. É algo que soa quase como uma poesia, uma bela música, não sei.
- Que idéia é essa?
- Nada não, fico só pensando, sei lá. Toda vez que vou a um cemitério, fico passando por entre as túmulos, olhando as fotos, os nomes, a data de nascimento e de morte, aí calculo a idade da pessoa e fico me perguntando: quem era, em vida? Você não pensa essas coisas?
- Não! De jeito nenhum. Só vou a esses lugares quando tem velório, mas faço as honras e me mando em seguida. A proximidade com a morte me dá arrepios - passando as mãos nos braços, num instinto de auto-proteção.
- Não é a morte, são apenas pessoas mortas. Um dia foram como nós e quem sabe conversaram numa quarta-feira, na varanda de suas casas.
- Você me dá medo, as vezes...
- Quando me deparo com aquelas tumbas onde não há foto, fico pensando se, de repente a pessoa era feia demais ou se não houve quem se preocupasse com isso.
- Há há há, essa é boa. Quem se preocupa com isso? Que importa colocar uma foto do morto, se...
Interrompendo:
- É para eternizar o momento entende?!? Em alguma fase da existência da humanidade, em algum lugar, esse alguém teve importância para outro. Não colocar uma foto é enterrar o registro cabal de que aquela pessoa realmente existiu. Não permitir que a vejamos é demasiado cruel! Nunca poderemos saber quem é.
- Você anda estranha...
- E os túmulos de famílias, então. Na Lapa há vários deles. Geralmente são de granito escuro, preto ou marrom. Fico muito curiosa quando leio "Família Guedes da Fonseca". Quais membros já ocuparam o lugar previamente reservado? Quais ainda restam?
- Ai, meu Deus do Céu...Que fixação!
- Não é fixação, é encantamento. Gosto de olhar os túmulos e ficar imaginando como foi aquela pessoa, como terminou sua vida. Será que era boa? Será que era rica ou pobre? Morreu de desastre ou por não agüentar mais o peso da vida?
Silêncio.
- O que mais penso é se era sozinha no mundo ou deixou saudades.
- Esse lance de gostar de cemitério e talz, tá parecendo coisa de gótico - num riso de escárnio
Inebriada pela emoção do devaneio:
- Será que quando eu for enterrada, alguém vai passar pelo meu túmulo e se perguntar quem era eu, afinal?
Puxando o braço da garota, na ânsia de trazê-la de volta a realidade, o irmão diz:
- A morte de mamãe deve ter te perturbado um bocado...
- Muito pelo contrário. Não me preocupa, porque todo mundo sabe o que mamãe foi em vida. Todos sabem que foi boa mãe, generosa, fiel, amistosa, inteligente e tudo o mais. O que me preocupa é ser injusta sabe?!? Nessas de ficar imaginando, corre-se o risco de fazer mau juízo de alguém que já morreu e nem pode se defender mais.
- Por isso é melhor não pensar em mais nada!
- Não é mais possível. Esses pensamentos povoam a minha mente mesmo antes de mamãe partir dessa para melhor.
- É bobagem! Temos que retomar a nossa vida. Só temos um ao outro agora.
- Não sei o que vai acontecer, mas tive um sonho a noite passada.
Numa gargalhada contida:
- Não era de cemitério, né?
- Não, era de vida. E de morte. Era você quem olhava nos meus olhos e dizia que seguiria só. Que havia um lugar lindo prá mim, cheio de poesia para eu cantar, porém, sem a sua companhia.
Os olhos do irmão, arregalados, se encheram de lágrimas, mas não havia mais tempo. Compreendeu que para um destinava a morte e para o outro sobrava a vida.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Trecho de um reencontro

E quando retornei, incontroláveis lágrimas denunciavam a decepção que a visita proporcionava. E não era choro comum de tristeza. Era arrependimento convertido em desespero. Era choro de compaixão.
Ela estava parada, com uma das mãos na cintura e a outra no batente da porta. Aquilo era suficiente desleixo para que eu percebesse que muita coisa havia mudado. Saia rota, cabelos desgrenhados, olhos apagados... Algumas rugas que denunciavam senão os anos de sofrimento aqueles que marcaram uma espera infinita.
Eu cá estava atônito. Inconformado com a crueldade dos desencontros que a vida teima em colocar em nossos caminhos.
Haveria guardado em nossos corações talvez um sentimento que nem o tempo conseguira modificar? Eu a amava mais que tudo! Ainda que muito tempo se passara, parecera que tivera sido agora a pouco. Ela ainda me amaria?
Num ímpeto de reviver aquele amor eu caminhei em sua direção de braços abertos.
Ela sorriu e também me recebeu em seus braços. E o que senti foi uma vaga saudade!

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Uma viagem ao inferno

Uma reconstrução do horror causado pela bomba atômica. Um retorno, 40 anos depois do episódio, resgata a identidade de alguns sobreviventes. Um livro histórico e de narrativa literária, é compreensível “Hiroshima” ser considerado um dos mais importantes livro-reportagem do século XX.
O autor John Hersey deixa transparecer a posição favorável ao “new journalism” e dá uma aula de como fazer esse jornalismo mais emocional e literário, e menos técnico, sem, evidentemente, esquecer da ética e da importância da apuração idônea na produção jornalística.
Por que o livro é uma referência? Primeiro pelo caráter de projeto que ele adquiriu: foi uma reportagem que o perseguiu e certamente o marcou para o resto da vida. Segundo, porque subverte a ordem das coisas, que se convencionou chamar de correta quando se trabalha a informação. Mostra, portanto, que a equação não se fecha: há muitas possibilidades de se dizer algo há alguém, mesclando objetividade jornalística com a subjetividade do ser humano.
Não se atém a teorias, a especulações, a juízo de valor: simplesmente expõe os fatos e os descreve. Como quem teve contato direto e conseqüente envolvimento com aqueles que viveram na pele, os dias de tensão antes e depois do lançamento da bomba atômica, que punha fim a Segunda Guerra Mundial, o seu texto acaba adquirindo um caráter bastante emocional, o que o torna interessante. Por esse motivo, Hersey obtém sucesso ao narrar o inenarrável.
Seu ponto de partida são seis vidas, todas habitantes de Hiroshima, contudo, com trajetórias distintas e bem particulares. O curioso, é que, ao penetrar na vida de cada um desses personagens da vida real, Hersey mantém um afastamento da própria narrativa. A partir da caracterização dos tipos e costumes de cada um, percebe que os personagens contarão a história. A ele, cabe apenas a tarefa de pô-la no papel.
Descrição apurada, construção textual que permite o acesso irrestrito e de fácil compreensão. O fato de apresentar os personagens, esmiuçar suas vidas a fundo, cria a empatia com o leitor, para que esse, a cada página virada, deseje não parar. Essa é a chave do livro: as páginas do livro passam diante dos olhos como filme e emocionam, pois nos transportam, ainda que seja um pouquinho, para um genocídio sem precedentes, deferido por um dúbio ser chamado humano, que se mostra tão cruel, egoísta e, paradoxalmente, tão solidário.

Resenha do livro Hiroshima, de John Hersey

sábado, 29 de abril de 2006

Pequeno diálogo amoroso

- Ouvi dizer que a gente daria certo...
- Quem disse isso?
- Ah, eu ouvi!
- Onde?
Esquiva:
- Por aí...
Um sorriso amarelo nos quatro cantos das bocas:
- Um passarinho da cor do amor!
- Qual é a cor do amor?
- Depende.
- Do quê?
- Do dia. Hoje ela está vermelha...
Ele vestia uma camiseta vermelha e jeans.
- ...e tem um toque tipo jeans também, sabe?!
- Sei. Mas que importa isso tudo?
- Importa que está escrito em algum lugar, e esse pássaro leu, e veio voando me contar.
- Você está dizendo que está predestinado?
- Se você acha isso...
- Não acredito nessas coisas. É tudo bobagem!
- O amor é bobagem?
- Então quer dizer que você me ama?
- ...
- Que bom! Você facilitou as coisas!

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Os dois lados da moeda

Naquele dia eu saí bem cedo com minha mãe para irmos até a cartomante. Fomos resolver os nossos destinos tão complicados e que de tão diferentes se cruzaram.
Papai a deixou, grávida, e agora ela estava vivendo feliz um novo amor. Estava amando de novo. Eu estava atrapalhando. Mas mamãe não tinha coragem de se livrar do empecilho, porque era uma mulher, ainda que na imaturidade de seus dezessete anos, muito responsável. Ela estava perdida, não sabia o que fazer. Tudo o que eu queria era vê-la feliz. Por outro lado, queria merecer a chance de ao menos experimentar o gostinho de viver. Deve ser tão bom!
Eu já tinha dado sinal de vida antes desse moço por quem mamãe se apaixonou aparecer, mas ela preferiu mentir sobre a minha existência. Teve medo de ser julgada e abandonada outra vez. Antes sempre alegre, ela caiu numa terrível depressão e eu também, porque tudo que mamãe vê eu vejo, tudo que mamãe sente eu sinto.
Tudo isso me fazia ter crises existenciais; apesar da barriga da mamãe ser muito aconchegante, queria me libertar, criar uma identidade própria...Queria sair da escuridão!
Enfim, chegamos à casa roxa da cartomante. Ao entrarmos, o cheiro de incenso penetrava nos poros o que me deixou um pouco atordoado. Mamãe ficou com dor de cabeça, mas acho que era de preocupação. Começou a chorar e contar sua triste história à cartomante que rapidamente pôs as cartas do tarô na mesa e deu resposta às dúvidas de mamãe.
Aquela angustiante espera de mamãe me provocou náuseas e começei a me debater, fazendo com que ela lembrasse que eu ainda estava ali. Estaria sempre ao seu lado, se ela assim desejasse. Era uma questão de escolha.
Sem antes ouvir a resposta, saiu da casa meio a esmo. Fomos parar numa clínica de aborto. Não conseguia odiá-la, pois era minha mãe e muito menos ao moço, pois ela o amava, talvez mais que a mim.
As paixões são incertas. Fico só pensando se vale a pena trocar uma relação estável por uma aventura. Pode ser que sim, pode ser que não.
Será que sentiria culpa ao me ver morto? Indefeso, eu não tinha culpa por ela estar naquela situação. Só podia confiar no bom senso. Mas não sei dizer se nessa situação o mais sensato seria me poupar. De qualquer maneira haveria uma morte: ou a do filho, ou a da paixão adolescente. Nunca é possível ficar com dois lados de uma moeda: quando escolhe um, o outro fica automaticamente descartado. Veja o meu caso, por exemplo, se escolher nascer, abandono o conforto do acolchoado ventre materno, mas terei o prazer de ver a luz de um dia de verão.
Entramos na clínica. Fiquei impressionado com a fila. Nesses tempos, anda cada vez mais fácil mudar de idéia. Mamãe não sentia-se bem. Imagens da vida passavam pela sua cabeça e a difícil decisão martelava seu cérebro, esmagando-o.
Decidiu. Saímos da clínica e fomos até a casa do moço de quem gostava muito, terminar o que nem havia começado. Abortou a possibilidade de amá-lo, já que ele era um moleque e seus sonhos não eram compatíveis com os dela. Quem sabe dalí a alguns anos eles se reencontrassem e fossem felizes? Seria obra do acaso. Nunca é bom contar com isso.
Os destinos meu e de mamãe, que antes apenas haviam se cruzado, se tornaram somente um. Ela seria minha mãe e eu seu filho e isso, nem o tempo, nem ninguém iria mudar.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Visita ao médico

1956
- Doutor, tá doendo muito.
- Espere um pouco, Helena!
- Tô sentindo um aperto no peito, será que é alguma coisa grave?
- Tenha paciência!
- Eu tenho dor!
O médico tentava acalmar a aflita Helena. Não podia examiná-la sem antes fazer a anamnese.
Há alguns dias, ela sofria calada uma dor intensa no coração.
- O que fez de diferente nos últimos dias?
- Me poupe doutor, não quero conversar. Quero que o senhor me diga o que eu tenho - disse com um riso cínico e irritadiço
- É o que eu estou tentando fazer - já impaciente
- Eu tenho medo de morrer - dizia sem parar - tenho muitas coisas para resolver na minha vida! - Se você me deixar examiná-la, saberei o que você tem.
Ela suspeitava de problemas irreverssíveis no coração, mas isso ninguém poderia perceber. Dona de casa dedicada, casou-se com um rico advogado com quem teve dois filhos. Cozinheira excelente. Era boa mãe. Tinha uma relação de suportabilidade com o marido.
- Ai ai, não quero morrer!
- A medicina muito avançou. Para vários males há tratamento.
Helena caiu num copioso choro. Nenhum deles sabia que o mal que ela sofria não era físico. O médico pegou sua mão e concedeu-lhe apoio àquele momento de desespero. Ela foi se acalmando.
- Tenho rezado muito, doutor.
- Exercitar a fé é sempre bom.
- Faço novena todo mês...
- Quando isso começou?
- Isso o quê? As novenas?
- Isso tudo: as novenas, as dores no peito?
- Nem me lembro mais - num suspiro - me sinto tão, tão infeliz...
O médico percebeu que confrontava um mal para o qual a cura não seriam os remédios.
- E o que você pede exatamente? - indagou astuto
- Que perguntas são essas? Peço para minha melhora, e para criar meus filhos, e para falar....e para criar coragem...
Confusa, desatou num choro ressentido e contido. O doutor apenas a observava e coçava o queixo. Excitada, mal conseguia respirar. Num sussurro, ela disse:
- Eu não posso, mas quero...eu, eu não sou como todas as mulheres...
Explodiu:
- Eu não quero arrumar a casa, eu não quero filhos, eu não quero carinhos de um bigode e... Percebeu que fora traída pela própria emoção. O médico arregalou os olhos, mas não se deixou levar pelo julgamento óbvio e instantâneo. Respirou fundo:
- Fale com ela.
- Falar com quem?
- Helena, você é adulta...
- É difícil saber o que dizer...
- Não, é simples: diga a ela que você a ama.

sábado, 15 de abril de 2006

O samba sabe o que diz

Há duas semanas, fui ao Samba da Vela, um projeto da Comunidade de nome homônimo, sediado em Santo Amaro. Além de celebrar o mais puro samba de raiz, a preocupação em conscientizar frequentadores sobre os cânceres da sociedade é presente nas letras das músicas e nas falas dos chefes da Comunidade. Fiquei impressionada ao perceber que o mesmo povo que grupos de intelectuais obsoletos alcunham de ignorante e alienado, não o é. O proletariado, a massa supostamente comandada pela aristocracia pós-moderna tem um projeto de resistência muito claro, mas não tem voz. Ai reside o cerne da questão.As letras dos sambas falam de amor, de política, de cultura, enfim, da vida. Falam do passado com nostalgia, do presente com desengano e de um futuro utópico.
O sambista Murilão, no alto do seus 70 anos, foi quem mereceu uma atenção especial na noite de ontem. Ao ser chamado a compor a roda, juntar-se aos seus, levou uma composição que falava da situação política do Brasil e dizia mais ou menos assim:
"Acabo de vir de Brasília, (ajeitando a gravata)
e vou contar a vocês meus amigos,
o que é o conselho de ética,
é uma doença morfética,
que por lá se espalhou"
Vou parar por aqui. Acredito não ser necessário mais nada dizer. O povo não é burro. O povo sabe. O povo fala. Os escândalos que o Brasil conheceu o ano passado, e que continua vendo ainda hoje, passam pela composição simples do Murilão. Do Conselho de Ética muito se falou, pouco se entendeu, nada se resolveu. Está na boca da roda de samba, que é o retrato do Brasil.
(em breve vou disponibilizar uma série especial para rádio sobre o Samba da Vela que ajudei a produzir)

terça-feira, 11 de abril de 2006

Mais um palhaço do circo sem futuro

O OESP, nessa última semana, não fala em outra coisa a não ser na metástase cancerosa que culmina em mais uma execução pública. Os holofotes estão em Suzane - outro câncer - a menina rica e assassina e a morte súbita do (i)maculado ministro da Fazenda Antônio Palocci.
Os jornalistas mais entendidos opinam, cientistas políticos e ex-petistas falidos e decepcionados o crucificam e ele, acredito, só faz piada. Aliás, o espetáculo circense está nos 45 do segundo tempo. É consenso entre os colunistas do OESP não descartar a possibilidade de Lula não terminar o ano no Palácio do Planalto. A OAB já se mobiliza em torno de um documento que pediria o impeachment do presidente Luis Inácio Lula da Silva.
O governo não perdeu mais um homem. Palocci significou, até o momento, elemento de redenção no julgamento que o povo fará em outubro desse ano. Para a opinião pública, ele não era apenas um dos únicos pilares da ala governista, mas aquele que havia conduzido os rumos da economia para o bom caminho. Ganhou respeito internacional - inclusive mudou a posição do Brasil na OMC - e alavancou os ganhos econômicos nos últimos anos. Estava executando um Ministério respeitável.Depois de se envolver nos escândalos com o carismático caseiro Nildo - palmeirense e gente da gente -, que tocou o coração dos brasileiros e teve seus quinze minutos de fama - quem não os quer? - foi enfiando o pé em um buraco profundo, onde lá no fundo havia uma jaca. Mole e podre. Aí, nem é necessário terminar a história.
O fato é que como todo réu, Palocci se declarou inocente, fez cara de dó e num momento de descontração fez a seguinte declaração: "A nossa economia está no céu. Já eu, estou mais para o lado do inferno de Dante"A piada é boa, mas a conduta merece cartão vermelho. Não acredito que ele estivesse em condições de fazer pilhéria - agora, menos ainda. Mas em se tratando de um espetáculo teatral, com fortes influências circenses ou mesmo da comédia dell'art, a cortina se fechou a semana passada. De palhaçada empatou com tantas outras figuras políticas destituídas do poder nos últimos meses. No quesito humor, ganhou em disparada. Fez humor negro da própria desgraça.

Crescer é muito difícil! - parafraseando Guimarães Rosa (licença poética)

A real medida das coisas: as escolhas e as perdas que elas implicam, a linha tênue entre afetividade e paixão e o abismo invisível existente entre confiança e traição, são alguns dos conflitos da alma abordados a partir de uma narrativa introspectiva, detalhista e ao mesmo tempo enxuta. O eixo temático de Longe da Água, de Michel Laub, escrito em primeira pessoa e com discurso indireto, é a culpa.
Ambientado em três espaços físicos – Porto Alegre, onde o narrador viveu a infância; Albatroz, a praia na qual passava as férias e São Paulo, que conheceu na maturidade – o livro usa o presente para falar de um passado que talvez não deixe saudade. Laura e Jaime são as figuras marcantes do livro e representam, para o protagonista, ao mesmo tempo alívio e angústia. As dúvidas enfrentadas na adolescência, a descoberta da sexualidade e a edificação de uma personalidade madura são temas corriqueiros que, para o autor, adquirem simbologias específicas no desenvolvimento da história.
Michel Laub fala com verdade e com sentimento, fator que deixa em aberto quanto do conteúdo do livro é autobiográfico. O que no início parece uma contenção de sentimentos se revela como necessidade de trazer à tona os pensamentos mais íntimos. Fica a questão como um mistério indissolúvel: cada um tem uma versão para o mesmo fato. A história do livro adquire curiosamente um caráter universal, provocando uma sensação de encaixe, uma espécie de ‘dejavú’.
É possível avaliar que o autor tem pela reflexão verdadeira adoração, elemento fundamental para a construção de um enredo carregado de conteúdo psicológico, que só se mostra à medida que a leitura vai prosseguindo. Entretanto, um ponto negativo na parte final do livro, momento que o leitor, imerso no universo dos personagens, não tem mais tempo para devaneios. O uso dos flash backs dão a impressão de obsessão pela idéia de que o personagem é marcado por algo mal resolvido.
O texto, embora seja delineado por um estilo do autor, não oferece nada de inovador ao leitor. O tema é recorrente em muitas obras da literatura. Apenas para citar: “Olhai os lírios do campo”, de Érico Veríssimo, apresenta estrutura e temática semelhantes ao Longe da Água.
Michel Laub não abre a porta de supetão; entra sorrateiro, sem que ninguém perceba. Prepara o leitor para situações posteriores, que vão se desenvolvendo ao longo da história. É um torpor sutil. As frases curtas, os capítulos reduzidos e o encadeamento das palavras na estrutura global do texto dão leveza e ritmo, como uma valsa de Offenbach; mas o significado que elas adquirem no contexto é pesado e denso, como um adágio de Bach. É como dizer um palavrão sorrindo. Falar dos conflitos da alma é demasiado complexo: aquilo que todo ser humano sente, mas nenhum tem coragem de falar.
O personagem cresce, amadurece, mas para isso sofre: sente-se culpado por coisas que poderiam ter sido diferentes, se assim ele quisesse, mas não foram, por outras tantas adversidades da vida. E ainda que um senhor – que alguns poderiam chamar de pai, outros de sábio – dissesse que há duas formas de aprender: pelo amor ou pela dor, a escolha unânime é pela segunda opção.

(O livro Longe da Água é do escritor gaúcho Michel Laub, radicado em São Paulo e editor da Revista Bravo!)

domingo, 9 de abril de 2006

Em tempo...

"A nossa economia está no céu. Já eu, estou mais para o lado do inferno de Dante"
(Antônio Palocci, há duas semanas, quando ainda não tinha 'cedido' o Ministério da Fazenda a Guido Mantega)

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Tudo errado

Uma cena.

Baladinha. Uma birosca decadente: pouca iluminação, algumas mesas de bilhar e um palco de madeira, onde vivia uma colônia de cupins. A banda tocava sabe-Deus-o-quê, mas eu e uma amiga dançávamos. Sei que aquela noite tomamos muito frozen, porque na compra de um você ganhava outro.
Eu, àquela hora, estava com uma latinha de cerveja quente na mão. Esses bares que não vendem cerveja de garrafa são os maiores fins-de-carreira. Considerando a minha noção etílica, um cara de uns 40 anos estava próximo a nós duas. Ele estava mais louco do que todos os super-heróis juntos e tinha um bigode que deixaria qualquer mexicano que se preze no chinelo. A camisa aberta até o umbigo e umas várias correntes de prata, que mais parecia latão. Suava em bica e as pernas tremiam tanto num requebrado que era só dele. Parecia aquele burrico paraguaio, feito de madeira, todo articulado e com um mecanismo que é possível mexer cada um dos seus membros. Todo mundo teve um quando criança. Um marionete, desengonçado e bêbado, que dançava freneticamente.
Como não haveria de ser diferente, o cara estava se achando no direito de ocupar todo o minúsculo espaço da improvisada pista de dança. Esbarrava nas pessoas, pisava nos pés ao seu redor e era necessário desviar dos golpes despretensiosos da sua mão descontrolada. O problema foi quando ele nos focou. A música, antes a diversão da noite, passou a ser fator secundário; o principal para ele atazanar a mim e a minha amiga.
Esbarrou uma vez. Pisou no meu pé pelo menos cinco vezes. Empurrou minha amiga, não uma, mas três vezes. Acertou com a face da mão no braço da minha amiga. Esbarrou mais uma vez. Eu comecei a dançar exagerada e esbarrei, sem-querer-querendo, nele. Continuamos a curtir o som e a dançar. Apesar do inconveniente de carne e osso, eu estava muito tranqüila. A minha amiga, não.
Quando ele pisou pela oitava vez no pé dela, não hesitou:
- Ei - cutucando o ombro do cara - pára de pisar em mim!
- O quê?
- Pára de pisar em mim! - dessa vez gritou, bem próximo do ouvido dele.
Eu, distraída, estava mais em outro plano, alheia a discussão. Não ouvi, tampouco vi nada. Só senti o murro canhoteiro. A mão fechada, toda força raivosa de um homem bêbado e bigodudo, concentrada e explodindo no meu ombro.
Fui jogada para trás, desprotegida. Algumas pessoas que asistiam a cena vieram me acudir. O bigodudo foi atacado por todos os seres do sexo masculino presentes, revoltados com a atitude:
- Bater em mulher não, rapá - gritou um deles
O tiozão foi espancado e jogado para fora do bar. Eu, atordoada e nauseada pelo murro, percebi o que acontece quando a pessoa errada, está no lugar errado e na hora errada.

Francisco Buarque de Holanda

O Chico Buarque deveria ter um epíteto: O Gênio

"A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu" (trecho de Pedaço de Mim sobre a saudade)

"Assim como ele veio partiu não se sabe prá onde; e deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe. Esperando parada, pregada na pedra do porto; com seu único e velho vestido cada dia mais curto" (trecho de Minha História, no qual ele conta que a mulher - mãe - virou prostituta)

"Chorar sua vida vivida, em vão(...) Chorar o seu tempo vivido em, vão" (trecho de Ai, se eles me pegam agora, falando de arrependimento)

"Pelo cordão perdido, te recolher prá sempre, à escuridão do ventre, curuminha, de onde não deverias nunca ter saído" (esse trecho de Uma canção desnaturada, faz parte da Ópera do Malandro, momento em que a personagem Teresinha abandona a mãe para fugir com um mau caráter. A mãe, desapontada, diz isso para ela)

"O tempo passou na janela, só Carolina não viu" (Carolina fala de vida reprimida e mal vivida, de tristeza e arrependimento)

"Quero ficar no teu peito, feito tatuagem. Que é prá te dar coragem prá seguir viagem depois que a noite vem." (Tatuagem é um dos muitos exemplos em como Chico explorou com genialidade a alma feminina, assumindo o eu-lírico feminino)

"Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida, pra agradar meu coração. E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado, ainda quis me aborrecer. Logo vou esquentar seu prato. Dou um beijo em seu retrato e abro os meus braços pra você" (Com açucar, com afeto novamente incorporando o eu-lírico feminino, da mulher apaixonada pelo marido boêmio)

"O amor não tem pressa ele pode esperar em silêncio, num fundo de armário, na posta-restante, milênios, milênios no ar. (...) Futuros amantes quiçá, se amarão sem saber, com o amor que eu um dia deixei prá você" (Futuros Amantes fala do amor incondicional, do amor verdadeiro que não acaba nem com o tempo, nem com a frustração de ser somente platônico, de existir somente na imaginação)

"Me dê a mão, a gente agora já não tinha medo. No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido" (João e Maria fala da inocência, da nostalgia de um tempo, da lembrança)

"Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro: chave, caderneta, terço e patuá. Um lenço e uma penca de documentos pra finalmente eu me identificar, olha aí. Olha aí, ai é o meu guri" (O meu guri é uma crônica. O eu-lírico feminino, dessa vez a mãe de um marginal que o defende com orgulho de mãe-coruja: insiste em não aceitar a realidade de que o seu filho é escravo do crime)

Apenas alguns excertos, que simbolizam uma parte ínfima da obra dele, mas que me tocam de alguma forma.
Para quem gosta e quer mais, sugiro o site: www.chicobuarque.com.br

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Devastação

De repente, um vento forte tomou conta do lugar. Meus olhos fitaram o que a princípio parecia ser um rodamoinho, mas que ia tomando proporções demasiado exageradas, se transformando em um furacão. Tentava fugir, mas uma força estranha impedia. Corria para todos os lados a procura de uma saída, sem obter êxito.


Meu pensamento estava todo ocupado com tolices que não me permitiam racionalizar uma solução. Minhas mãos geladas, minhas pernas bambas, meu coração apertado, me faziam sentir um medo nunca antes experimentado. Seria o meu fim?


Movida por um impulso irracional fui em direção ao furacão, num ímpeto de enfrentá-lo. Arrebatada, fui arrancada do chão, expulsa da realidade sem chance de volta. Vivia agora mergulhada em fantasias...


Pisando em nuvens, percebi que toda aquela confusão, aquele cenário de devastação era interior, acontecia no meu coração: era amor.

terça-feira, 4 de abril de 2006

Uma simples homenagem

Por Maria Teresa Cruz

PORTA
TORTA
ARTERIA
AORTA
SE ENTORTA
MORTA FICA
DESENTORTA
ARTERIA E PORTA
ABORTA
ABERTA
PORTA
VITA
SE ENTORTA
PORTA E AORTA
CERTO QUE FICA MORTA
DESENTORTA
ARTERIA E PORTA

ROTA DA VIDA

(A poesia concretista é o que há de mais tocante, no sentido literal da palavra. Ela é simples e isso é fantástico. Vocês conseguiram visualizar a artéria aorta e a porta? Percebo uma semelhança incrível entre elas: tanto porta quanto aorta significam passagem. Pela porta passa gente - necessariamente viva - , logo passa vida. Pela artéria Aorta passa sangue, que carrega hemácias e leucócitos, necessários a vida. Viva Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Arnaldo Antunes!)